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Artigo técnico

Caldo BHI e ágar BHI (infusão de cérebro e coração): para que serve, composição e preparo

Equipe técnica Sora Scientific · · 9 min de leitura

Tubos tampados de caldo BHI âmbar-claro, um límpido sem inóculo e outros turvos com crescimento bacteriano, meio de infusão de cérebro e coração

O caldo BHI (caldo de infusão de cérebro e coração, do inglês Brain Heart Infusion) é um meio líquido rico e não seletivo, usado para propagar microrganismos exigentes, como estreptococos, pneumococos, meningococos e leveduras, e para obter culturas de trabalho e inóculos. O ágar BHI é a mesma base solidificada com ágar, para cultivar em placa bactérias exigentes, leveduras e bolores. No catálogo da Sora, o Caldo Infusão Cérebro e Coração (BHI) é reconstituído a 37 g/L e o Ágar Infusão Cérebro e Coração (BHI) a 52 g/L, ambos com pH final de 7,4 ± 0,2 a 25 °C e esterilização a 121 °C por 15 minutos, segundo as fichas técnicas.

A seguir: por que o BHI é rico, para que serve cada versão, como preparar, quando acrescentar sangue ou antibióticos, como ele se compara ao TSB e ao TSA e o que a ficha declara no controle de qualidade.

O que é o meio BHI

O BHI é um meio de uso geral cuja riqueza vem de infusões de tecido animal (cérebro e coração) somadas a uma peptona. A formulação descende de um caldo com dextrose e tecido cerebral descrito por Rosenow em 1919 para o cultivo de estreptococos e modificado por Hayden em 1923; as versões atuais usam infusões desidratadas no lugar do tecido e fosfato como tampão.

Por não ter inibidores, o BHI não favorece nem suprime nenhum grupo: o que estiver no tubo cresce, inclusive contaminantes. Na classificação dos tipos de meio de cultura, ele é um meio nutritivo não seletivo, que passa a enriquecido quando recebe sangue. As duas fichas da Sora registram a mesma limitação: como as exigências nutricionais variam, algumas cepas podem crescer pouco ou não crescer.

Composição do BHI e por que ele é um meio rico

As fichas da Sora declaram a mesma base para o caldo e para o ágar; a diferença é o ágar:

IngredienteCaldo (g/L)Ágar (g/L)Função declarada na ficha
Infusão de cérebro bovino12,5012,50Carbono, nitrogênio, aminoácidos, vitaminas e fatores de crescimento
Sólidos de infusão cérebro-coração5,005,00Idem
Peptona proteose10,0010,00Idem
Dextrose (glicose)2,002,00Fonte de energia
Cloreto de sódio5,005,00Equilíbrio osmótico
Fosfato dissódico2,502,50Tamponamento
Ágar—15,00Agente solidificante

O que distingue o BHI de um meio só de peptonas é a combinação de infusões de tecido com peptona proteose: além de aminoácidos, o meio entrega vitaminas e fatores de crescimento que organismos exigentes não sintetizam bem. A dextrose acelera o crescimento, e o fosfato segura o pH enquanto ela é consumida.

Para que serve o caldo BHI

Propagação de cocos patogênicos e exigentes

A ficha do caldo declara a aplicação na propagação de cocos patogênicos e de outros microrganismos exigentes associados a hemoculturas e a investigações patológicas correlatas, além de amostras de alimentos. As cepas do controle microbiológico confirmam o perfil: Neisseria meningitidis, Streptococcus pneumoniae e Streptococcus pyogenes estão entre elas. Veja a seleção de microbiologia clínica (pesquisa e ensino) e os meios para Enterococcus e estreptococos e para Neisseria.

A mesma ficha registra que, com 10% de sangue de carneiro desfibrinado, o meio é útil para o isolamento e o cultivo de Histoplasma capsulatum.

Culturas de trabalho, revitalização de cepas e inóculos

Por ser rico e não seletivo, o caldo BHI é um meio prático para reativar cepas de referência, obter culturas de trabalho e preparar suspensões para ensaios de crescimento. Quando a cultura vai servir de inóculo num ensaio normatizado, siga o meio e o número de passagens que a norma define; a liberação de lote está no guia do teste de promoção de crescimento em meios de cultura. Outros caldos de uso geral estão em cultivo, enriquecimento e manutenção.

Confirmação de estafilococos coagulase-positivos (ISO 6888-1)

Em alimentos, a ISO 6888-1:2021 conta os estafilococos coagulase-positivos em Ágar Base Baird-Parker e confirma as colônias típicas pela prova da coagulase com plasma de coelho. Nessa etapa, as colônias são antes cultivadas em caldo BHI, e é a cultura em caldo que vai ao plasma; volumes, temperatura e tempo de leitura são os da norma e da emenda de 2023. O lugar da coagulase na identificação de Staphylococcus aureus está no guia do teste de catalase.

Para que serve o ágar BHI

A ficha do ágar declara o cultivo de bactérias patogênicas exigentes, leveduras e bolores a partir de amostras clínicas e não clínicas. Em placa, ele permite isolar colônias de organismos que crescem mal em meios mais pobres; a técnica está no guia de semeadura por esgotamento.

A ficha prevê dois suplementos opcionais, adicionados depois da autoclavagem, com o meio a 45–50 °C:

  • 5% v/v de sangue desfibrinado estéril: fornece fatores de crescimento aos fungos mais exigentes; o meio fica vermelho-cereja e forma gel opaco. A técnica de adição está no guia como preparar ágar sangue.
  • 20 unidades de penicilina e 40 µg de estreptomicina por mL de meio: tornam o ágar seletivo para fungos.

Para inibir bactérias e isolar fungos patogênicos sistêmicos, a ficha cita ainda combinações frequentemente recomendadas, como 50 mg/L de cloranfenicol com 5–10% de sangue desfibrinado estéril. Para leveduras e bolores de rotina, compare com o guia ágar Sabouraud, Sabouraud com cloranfenicol ou batata dextrose e com os meios para fungos e leveduras.

Duas placas de Petri tampadas de ágar BHI, uma âmbar-clara com colônias de levedura e outra vermelho-cereja com 5% de sangue desfibrinado

Caldo BHI ou ágar BHI: qual usar

O caldo multiplica a população e mostra se houve crescimento; o ágar separa e mostra as colônias. É comum usar os dois em sequência: crescer em caldo e repicar em placa para conferir a pureza.

Caldo BHIÁgar BHI
Reconstituição37 g/L52 g/L
Aspecto prontoLímpido, amarelo-claro a âmbar médioGel âmbar-claro, límpido a levemente opalescente
Uso típicoPropagar, reativar, preparar inóculo, cultura para a coagulaseIsolar colônias; cultivar exigentes, leveduras e bolores; base com sangue ou antibióticos
LeituraTurvação, sedimento, películaColônias isoladas, morfologia, pureza

BHI, TSB e TSA: qual a diferença

O BHI e o caldo triptona de soja (TSB) são caldos não seletivos de bases diferentes: o BHI usa infusões de tecido animal e peptona proteose; o TSB, digestos de caseína e de soja. Nas fichas da Sora:

MeioBase nutritivaReconstituiçãopH final
Caldo BHIInfusões de cérebro e coração, peptona proteose, dextrose 2 g/L37 g/L7,4 ± 0,2
TSBDigesto pancreático de caseína 17 g/L, digesto papaínico de soja 3 g/L, dextrose 2,5 g/L30 g/L7,3 ± 0,2
Ágar BHIBase do caldo BHI com ágar 15 g/L52 g/L7,4 ± 0,2
TSATriptona 15 g/L, peptona de soja 5 g/L, ágar 15 g/L40 g/L7,3 ± 0,2

A regra prática: escolha o BHI quando o organismo é exigente e o objetivo é fazê-lo crescer bem; escolha o caseína-soja quando a norma o especifica. A USP pede o meio caseína-soja na enumeração microbiana (<61>) e no ensaio de esterilidade (<71>), e trocar um pelo outro exige demonstrar desempenho equivalente. Aplicações do TSA e do TSB estão no guia do ágar TSA.

Frascos de caldo BHI e de caldo TSB preparados lado a lado na bancada, comparação entre os dois meios de cultura não seletivos

Como preparar o caldo e o ágar BHI

Caldo BHI, conforme a ficha:

  1. Suspenda 37,0 g em 1.000 mL de água destilada.
  2. Distribua em frascos ou tubos.
  3. Esterilize em autoclave a 121 °C (15 lb/pol²) por 15 minutos.
  4. Use de preferência no dia do preparo. Se o caldo foi armazenado, ferva-o ou aqueça-o em vapor fluente por alguns minutos e resfrie antes do uso, o que expulsa o oxigênio absorvido na estocagem.

Ágar BHI, conforme a ficha:

  1. Suspenda 52,0 g em 1.000 mL de água destilada.
  2. Aqueça até a ebulição para dissolver completamente o meio.
  3. Esterilize em autoclave a 121 °C (15 lb/pol²) por 15 minutos.
  4. Resfrie a 45–50 °C, adicione sangue ou antibióticos se for o caso, homogeneíze e distribua em placas de Petri estéreis.

Um frasco de 500 g rende cerca de 13,5 L de caldo ou 9,6 L de ágar. O pó é conservado abaixo de 30 °C e o meio preparado, entre 2 e 8 °C. Para converter litros em placas e frascos, use o guia como calcular meio de cultura; os erros gerais de pesagem, dissolução e autoclavagem estão em como preparar meio de cultura desidratado.

Controle de qualidade: o que as fichas declaram

Físico-químico. O pó dos dois meios é creme a amarelo, homogêneo e de escoamento livre. O caldo pronto é límpido, amarelo-claro a âmbar médio; o ágar base é âmbar-claro, límpido a levemente opalescente, e vermelho-cereja e opaco com 5% de sangue. O pH final dos dois é 7,4 ± 0,2.

Microbiológico do caldo. Inóculo de 50–100 UFC, leitura após 24–48 h a 35–37 °C, crescimento bom a abundante de N. meningitidis ATCC 13090, S. pneumoniae ATCC 6303, S. pyogenes ATCC 19615, S. aureus ATCC 25923, Candida albicans ATCC 10231 e Enterococcus faecalis ATCC 29212.

Microbiológico do ágar. Leitura após 18–24 h a 35–37 °C, crescimento abundante, com e sem 5% de sangue, de S. pneumoniae ATCC 6303, S. aureus ATCC 25923, C. albicans ATCC 26790, Escherichia coli ATCC 25922 e Shigella flexneri ATCC 12022.

A Sora emite certificado de análise por lote, depois do envase. O lote que você reidrata e esteriliza, porém, é um lote novo e precisa ser liberado pelo seu laboratório, com as cepas e o critério do seu método.

Erros comuns com o BHI

  • Trocar as concentrações: 37 g/L é a do caldo e 52 g/L a do ágar.
  • Suplementar com o meio quente: acima de 45–50 °C o sangue se danifica e os antibióticos podem perder atividade.
  • Usar caldo estocado sem reaquecer: a ficha recomenda o uso no dia ou um aquecimento breve antes do uso.
  • Esperar seletividade: um contaminante cresce junto com o alvo; confira a pureza em placa e identifique com provas complementares.
  • Ignorar a atmosfera: pneumococos e meningococos costumam exigir incubação com CO₂, e o meio rico não compensa a atmosfera errada.
  • Substituir o meio da norma: onde a farmacopeia ou a ISO especifica caseína-soja, o BHI não entra sem estudo de equivalência.

Próximo passo

Se a sua rotina inclui cultivo de exigentes, manutenção de cepas ou a prova da coagulase, consulte o Caldo BHI e o Ágar BHI, com composição, preparo e controle microbiológico publicados, ou percorra o catálogo de meios de cultura. Para decidir entre BHI e caseína-soja no seu método, fale com a equipe técnica da Sora.

Perguntas frequentes

Para que serve o caldo BHI?

O caldo BHI é um meio líquido rico e não seletivo para propagar microrganismos exigentes, como estreptococos, pneumococos, meningococos e leveduras. Também é usado para reativar cepas, preparar culturas de trabalho e, em alimentos, cultivar as colônias que seguem para a prova da coagulase.

Qual a diferença entre caldo BHI e ágar BHI?

A base nutritiva é a mesma; o ágar BHI tem 15 g/L de ágar e é reconstituído a 52 g/L, enquanto o caldo é reconstituído a 37 g/L. O caldo serve para multiplicar a população, e o ágar para isolar e observar colônias.

O BHI é um meio seletivo?

Não. O BHI não tem inibidores e sustenta bactérias, leveduras e bolores. O ágar BHI só se torna seletivo para fungos quando recebe antibióticos, como penicilina e estreptomicina.

Qual a diferença entre BHI e TSB?

O BHI usa infusões de cérebro e coração com peptona proteose, o que o torna mais rico para organismos exigentes. O TSB usa digestos de caseína e soja e é o meio especificado pela USP na enumeração microbiana e no ensaio de esterilidade.

Posso adicionar sangue ao ágar BHI?

Sim. A ficha indica 5% v/v de sangue desfibrinado estéril, adicionado após autoclavar e resfriar o meio a 45–50 °C. O meio fica vermelho-cereja e opaco e fornece fatores de crescimento aos fungos mais exigentes.

Referências bibliográficas e normas técnicas

  • International Organization for Standardization. ISO 6888-1:2021 Microbiology of the food chain — Horizontal method for the enumeration of coagulase-positive staphylococci (Staphylococcus aureus and other species) — Part 1: Method using Baird-Parker agar medium. Genebra: ISO, 2021. Emenda: ISO 6888-1:2021/Amd 1:2023.
  • United States Pharmacopeia. General Chapter <61> Microbiological Examination of Nonsterile Products: Microbial Enumeration Tests. USP–NF, edição vigente.
  • United States Pharmacopeia. General Chapter <71> Sterility Tests. USP–NF, edição vigente.
  • Sora Scientific. Fichas técnicas FT-SM-00422 (Caldo Infusão Cérebro e Coração), FT-SM-00323 (Ágar Infusão Cérebro e Coração), FT-SM-00224 (Caldo Triptona de Soja), FT-SM-00125 (Ágar Triptona de Soja) e FT-SM-08128 (Ágar Base Baird-Parker). Disponíveis em https://docs.sorascientific.com/.