Ágar Sabouraud, Sabouraud com cloranfenicol ou batata dextrose: qual usar para fungos e leveduras
Para contar bolores e leveduras em produto farmacêutico ou cosmético não estéril, o meio de referência é o ágar Sabouraud dextrose, previsto na USP <61> e na Ph. Eur. 2.6.12 e incubado a 20–25 °C por 5 a 7 dias. Quando bactérias crescem junto e inflam a contagem, o texto harmonizado admite o Sabouraud com antibióticos, e o Sabouraud com cloranfenicol é a versão pronta. Em alimentos, os métodos de referência usam outros meios: a ISO 21527-1 emprega o DRBC para produtos com atividade de água (aw) acima de 0,95, a ISO 21527-2 emprega o DG18 para aw de até 0,95, e o FDA BAM, capítulo 18, segue a mesma linha. O ágar batata dextrose (BDA) serve sobretudo para isolar e repicar colônias e, acidificado, para trabalhos específicos.
A escolha depende de três perguntas: que método o seu dossiê adota, quanto de bactéria a amostra traz e se o objetivo é contar ou isolar.
Composição e princípio de cada meio
Ágar Sabouraud dextrose: pH ácido e muita glicose
A formulação clássica combina peptona, uma concentração alta de dextrose e pH ácido. No Ágar Sabouraud Dextrose da Sora, a ficha técnica declara peptona micológica 10 g/L, dextrose 40 g/L e ágar 15 g/L, reconstituição de 65 g/L e pH final de 5,6 ± 0,2. A glicose em excesso e o pH baixo favorecem os fungos e desfavorecem as bactérias.
Desfavorecer não é inibir. A mesma ficha declara crescimento abundante, com recuperação ≥ 70%, de Escherichia coli (ATCC 25922, ATCC 8739 e NCTC 9002) e de Lactobacillus casei ATCC 9595 após 48–72 h a 30–35 °C, ao lado de Candida albicans ATCC 10231, Aspergillus brasiliensis ATCC 16404 e Saccharomyces cerevisiae ATCC 9763. Na prática: em amostra com carga bacteriana relevante, o Sabouraud sem antibiótico vai mostrar bactéria.
Sabouraud com cloranfenicol: seletividade por antibiótico
O Ágar Sabouraud Cloranfenicol mantém a lógica do Sabouraud (dextrose 40 g/L, pH 5,6 ± 0,2) e acrescenta cloranfenicol a 0,05 g/L, que inibe ampla faixa de bactérias gram-positivas e gram-negativas. O antibiótico já vem no pó e é autoclavado com o meio, a 121 °C por 15 minutos, conforme o preparo da ficha. Isso é coerente com o BAM, que prefere o cloranfenicol justamente por ele resistir à autoclavagem.
O controle microbiológico declarado mostra o efeito: E. coli (três cepas) e L. casei ATCC 334 inibidos; A. brasiliensis, C. albicans, S. cerevisiae e Trichophyton rubrum ATCC 28191 com crescimento bom a abundante, a 25–30 °C por 48–72 h. A ficha também registra a limitação: antimicrobianos que inibem bactérias podem inibir certos fungos.
Ágar batata dextrose (BDA) e a acidificação com ácido tartárico
O BDA é um meio nutritivo simples, sem agente seletivo. O Ágar Batata Dextrose traz infusão de batata (a partir de 200 g), dextrose 20 g/L e ágar 15 g/L, com reconstituição de 39 g/L e pH 5,6 ± 0,2. A ficha declara crescimento abundante de A. brasiliensis, C. albicans e S. cerevisiae a 22–25 °C em 2–4 dias, com formação de ascósporos positiva para S. cerevisiae, e lembra que o meio não é diferencial: a identificação exige microscopia e testes complementares.
Quando o trabalho exige pH 3,5, a ficha orienta acidificar o meio já estéril e resfriado com solução estéril de ácido tartárico a 10%, cerca de 1 mL por 100 mL de meio, e não aquecer depois: o calor em pH tão baixo hidrolisa o ágar e o meio deixa de solidificar.
DRBC e DG18: os meios dos métodos de alimentos
O Ágar Base DRBC combina dicloran, que reduz o diâmetro das colônias de bolores invasores, rosa bengala, que suprime bactérias e restringe bolores de crescimento rápido, e cloranfenicol, adicionado pelo Suplemento Seletivo de Cloranfenicol. O Ágar Base DG18 usa glicerol a 18% (p/p) para baixar a aw e favorecer bolores xerofílicos. As fichas declaram composição e critérios de desempenho de acordo com a ISO 21527-1 (DRBC) e a ISO 21527-2 (DG18). A Sora tem ainda o Ágar Rosa Bengala Cloranfenicol, com o antibiótico já incorporado (0,10 g/L).
Quando usar cada um
Farmacêutico e cosmético: USP <61>/<62> e Ph. Eur. 2.6.12/2.6.13
No ensaio de enumeração microbiana, a contagem total de bolores e leveduras (TYMC) é feita em ágar Sabouraud dextrose a 20–25 °C por 5 a 7 dias. O texto harmonizado define que a TYMC é o número de UFC nesse meio e que colônias de bactéria que aparecerem nele entram na TYMC. Por isso ele admite o Sabouraud com antibióticos: é a saída quando a flora bacteriana do produto empurra a contagem para fora da especificação.
Pontos do capítulo que afetam a escolha do meio:
- Promoção de crescimento: C. albicans ATCC 10231 e A. brasiliensis ATCC 16404, no máximo 100 UFC, a 20–25 °C por até 5 dias, com recuperação que não difira por fator maior que 2 do controle.
- Leitura: a placa contada para TYMC é a que tem o maior número de colônias abaixo de 50.
- Pesquisa de C. albicans (USP <62>, Ph. Eur. 2.6.13): enriquecimento em caldo Sabouraud dextrose a 30–35 °C por 3 a 5 dias e subcultivo em ágar Sabouraud dextrose a 30–35 °C por 24–48 h. A Sora oferece o Caldo Sabouraud Dextrose.
Se o laboratório trocar o Sabouraud pelo Sabouraud com cloranfenicol, a promoção de crescimento e a adequação do método precisam ser feitas com o meio novo. O passo a passo está no artigo sobre o teste de promoção de crescimento em meios de cultura. Veja também as seleções para farmacêutico e esterilidade e para a indústria cosmética.
Alimentos: ISO 21527 e FDA BAM
Para alimentos e rações, a ISO 21527 divide o método pela atividade de água: a parte 1 cobre produtos com aw > 0,95 e a parte 2, produtos com aw ≤ 0,95, ambas com incubação a 25 ± 1 °C. O Sabouraud não é o meio desses métodos.
O BAM, capítulo 18, traz orientações práticas que valem para qualquer contagem de fungos:
- o espalhamento em superfície é considerado melhor que o plaqueamento em profundidade, e o DRBC deve ser usado só em superfície;
- o DG18 é o preferido quando a aw da amostra é menor que 0,95;
- placas incubadas no escuro, a 25 °C, sem inverter e em pilhas de no máximo 3;
- contagem após 5 dias; sem crescimento, reincubar por mais 48 h; não manusear antes, porque o manuseio gera colônias secundárias;
- com supercrescimento bacteriano, o BAM divide o antibiótico: 50 mg/L de cloranfenicol antes da autoclavagem e 50 mg/L de clortetraciclina esterilizada por filtração no meio já temperado, logo antes de verter.
BDA: isolamento e repique
O BAM indica isolar colônias em BDA ou ágar malte quando é preciso analisar e identificar a espécie. É esse o papel mais seguro do BDA na rotina: meio nutritivo para repique, purificação e observação da colônia, e não meio seletivo de contagem. A versão acidificada fica para os trabalhos específicos que a pedem.
Tabela comparativa
| Meio | pH final (ficha) | O que segura as bactérias | Uso típico | Referência |
|---|---|---|---|---|
| Ágar Sabouraud dextrose | 5,6 ± 0,2 | pH ácido e dextrose alta (parcial) | TYMC em farmacêuticos e cosméticos | USP <61>, Ph. Eur. 2.6.12 |
| Sabouraud com cloranfenicol | 5,6 ± 0,2 | Cloranfenicol 0,05 g/L | TYMC com flora bacteriana interferente; isolamento seletivo | Admitido no texto harmonizado |
| Ágar batata dextrose | 5,6 ± 0,2 (3,5 acidificado) | Nada; ou pH 3,5 com ácido tartárico | Isolamento, repique, identificação | BAM cap. 18 (isolamento) |
| DRBC | 5,6 ± 0,2 | Rosa bengala, dicloran, cloranfenicol | Alimentos com aw > 0,95 | ISO 21527-1, BAM |
| DG18 | 5,6 ± 0,2 | Cloranfenicol; glicerol baixa a aw | Alimentos com aw ≤ 0,95, xerofílicos | ISO 21527-2, BAM |
Erros comuns no preparo e no uso
- Superaquecer meio ácido. As fichas do Sabouraud alertam que superaquecer um meio de pH ácido frequentemente produz meio mole. Respeite o ciclo de 121 °C por 15 minutos e não deixe o meio na autoclave nem refunda várias vezes. Os outros erros de preparo estão em como preparar meio de cultura desidratado.
- Aquecer o BDA depois de acidificar. O ácido tartárico entra no meio estéril e resfriado; qualquer aquecimento posterior hidrolisa o ágar.
- Adicionar o suplemento com o meio quente. No DRBC e no DG18, a ficha manda resfriar a 50 °C antes de adicionar o cloranfenicol reconstituído. Antibióticos sensíveis ao calor, como a clortetraciclina do BAM, só entram no meio temperado.
- Tratar Sabouraud como meio seletivo. Sem antibiótico, bactérias crescem, e na farmacopeia elas contam como TYMC.
- Expor o DRBC à luz. A ficha avisa que a rosa bengala sofre fotodegradação e forma substâncias tóxicas aos fungos.
- Esquecer que o antibiótico também pode inibir fungos. Qualifique o meio seletivo com as cepas do seu método antes de adotá-lo.
Qual escolher
Se o método é farmacopeico, comece pelo ágar Sabouraud dextrose e passe ao Sabouraud com cloranfenicol quando a flora bacteriana do produto interferir, requalificando o meio. Se a amostra é alimento, siga a ISO 21527 com DRBC ou DG18, conforme a aw. Para isolar, repicar e identificar, use o BDA.
Veja todos os meios para fungos e leveduras do catálogo, com composição, pH, preparo e controle microbiológico publicados na ficha técnica de cada um. Para definir o meio do seu método ou revisar o POP de contagem, fale com a equipe técnica da Sora.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre ágar Sabouraud e Sabouraud com cloranfenicol?
Os dois têm dextrose alta e pH ácido, que favorecem os fungos. O Sabouraud com cloranfenicol acrescenta o antibiótico, que inibe bactérias gram-positivas e gram-negativas; sem ele, bactérias como E. coli ainda podem crescer.
Qual meio a USP <61> usa para contar bolores e leveduras?
O ágar Sabouraud dextrose, incubado a 20–25 °C por 5 a 7 dias. O texto harmonizado com a Ph. Eur. 2.6.12 admite o Sabouraud com antibióticos, e colônias de bactéria que crescerem no meio entram na contagem.
Posso usar ágar Sabouraud para bolores e leveduras em alimentos?
Os métodos de referência para alimentos usam outros meios: a ISO 21527-1 emprega DRBC (aw > 0,95) e a ISO 21527-2 emprega DG18 (aw ≤ 0,95). O Sabouraud só cabe se o método validado do seu laboratório o prevê.
Para que serve o ácido tartárico no ágar batata dextrose?
Ele baixa o pH a 3,5 para inibir bactérias em trabalhos específicos. Adicione cerca de 1 mL de solução estéril a 10% por 100 mL de meio estéril e resfriado, e não aqueça depois, porque o ágar se hidrolisa.
Por que o meio Sabouraud ficou mole depois do preparo?
O calor excessivo em pH ácido hidrolisa o ágar. Confira o tempo de autoclavagem, evite deixar o meio na autoclave após o ciclo e não refunda o mesmo frasco várias vezes.
Referências bibliográficas e normas técnicas
- United States Pharmacopeia. General Chapter <61> Microbiological Examination of Nonsterile Products: Microbial Enumeration Tests. USP–NF, edição vigente.
- United States Pharmacopeia. General Chapter <62> Microbiological Examination of Nonsterile Products: Tests for Specified Microorganisms. USP–NF, edição vigente.
- European Pharmacopoeia. 2.6.12 Microbiological examination of non-sterile products: microbial enumeration tests. Estrasburgo: EDQM, edição vigente.
- European Pharmacopoeia. 2.6.13 Microbiological examination of non-sterile products: test for specified micro-organisms. Estrasburgo: EDQM, edição vigente.
- International Organization for Standardization. ISO 21527-1:2008 Microbiology of food and animal feeding stuffs — Horizontal method for the enumeration of yeasts and moulds — Part 1: Colony count technique in products with water activity greater than 0,95. Genebra: ISO, 2008.
- International Organization for Standardization. ISO 21527-2:2008 Microbiology of food and animal feeding stuffs — Horizontal method for the enumeration of yeasts and moulds — Part 2: Colony count technique in products with water activity less than or equal to 0,95. Genebra: ISO, 2008.
- Tournas, V.; Stack, M. E.; Mislivec, P. B.; Koch, H. A.; Bandler, R. Bacteriological Analytical Manual, Chapter 18: Yeasts, Molds and Mycotoxins. U.S. Food and Drug Administration, edição de abril de 2001.
- Sora Scientific. Fichas técnicas FT-SM-06429 (Ágar Sabouraud Dextrose), FT-SM-16527 (Ágar Sabouraud Cloranfenicol), FT-SM-00927 (Ágar Batata Dextrose), FT-SM-16329 (Ágar Base DRBC), FT-SM-12823 (Ágar Base DG18) e FT-SM-15123 (Ágar Rosa Bengala Cloranfenicol). Disponíveis em https://docs.sorascientific.com/.
