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Artigo técnico

Ágar SS (Salmonella Shigella): para que serve, preparo e leitura das colônias

Equipe técnica Sora Scientific · · 8 min de leitura

Placas de Petri com ágar SS laranja-avermelhado e translúcido, recém-vertidas e tampadas sobre a bancada

O ágar SS (ágar Salmonella Shigella) é um meio de plaqueamento altamente seletivo e diferencial para isolar Salmonella spp. e Shigella spp. de amostras com microbiota entérica abundante. Três mecanismos atuam juntos: sais biliares, verde brilhante e citrato de sódio inibem gram-positivos e parte dos coliformes; a lactose com vermelho neutro separa fermentadores (colônias rosa a vermelhas) de não fermentadores (incolores); e o tiossulfato com citrato férrico revela a produção de H₂S como um centro preto na colônia. A ficha técnica do Ágar Salmonella Shigella (SS) da Sora declara uso em fezes, swabs retais e alimentos suspeitos.

Colônia incolor com centro preto sugere Salmonella, mas não confirma. E, como a própria ficha registra, o SS não é recomendado como meio único para o isolamento primário de Shigella: algumas cepas não crescem nele. Por isso ele trabalha em par com um meio menos inibitório, como o XLD ou o Hektoen.

Composição do ágar SS e função de cada componente

Valores da ficha técnica da Sora (g/L). A coluna de função resume o princípio descrito na ficha.

Componenteg/LFunção
Digesto péptico de tecido animal5,00Nitrogênio, carbono e aminoácidos
Extrato de carne bovina5,00Vitaminas e nutrientes complementares
Lactose10,00Carboidrato fermentável, base da diferenciação
Mistura de sais biliares8,50Inibe gram-positivos
Citrato de sódio10,00Reforça a inibição de gram-positivos e coliformes
Tiossulfato de sódio8,50Fonte de enxofre reduzido a H₂S
Citrato férrico1,00Reage com o H₂S e forma sulfeto ferroso preto
Verde brilhante0,00033Agente seletivo
Vermelho neutro0,025Indicador de pH
Ágar15,00Solidificante

Por que o SS é mais seletivo que o MacConkey

A comparação com o ágar MacConkey ajuda a entender o SS. Os dois diferenciam pela lactose com vermelho neutro, mas o SS leva 8,50 g/L de sais biliares (o MacConkey da Sora leva 1,50 g/L) e soma verde brilhante e citrato. O resultado aparece no controle microbiológico: no SS, Escherichia coli ATCC 25922 tem crescimento apenas regular (recuperação de 20–30%), e Enterococcus faecalis ATCC 29212, nenhum a fraco (≤ 10%). A microbiota acompanhante fica para trás, e os patógenos lactose-negativos aparecem com mais facilidade. O preço dessa seletividade é a perda de parte das Shigella.

Lactose, vermelho neutro e H₂S

Quem fermenta a lactose acidifica o meio, e o vermelho neutro passa de amarelo a vermelho: a colônia fica rosa a vermelha. Quem não fermenta cresce translúcido e incolor. Em paralelo, algumas enterobactérias reduzem o tiossulfato a H₂S, que reage com os íons férricos e precipita sulfeto ferroso preto no centro da colônia. Os dois eixos combinados (lactose e H₂S) geram os aspectos que você lê na placa.

Como preparar o ágar SS: ferver, não autoclavar

O ágar SS não vai à autoclave. A ficha da Sora é explícita: "NÃO AUTOCLAVAR NEM SUPERAQUECER", porque o superaquecimento pode destruir a seletividade do meio.

  1. Suspenda 63,02 g em 1000 mL de água destilada.
  2. Ferva com agitação frequente até dissolver completamente.
  3. Resfrie a cerca de 50 °C, homogeneíze e distribua em placas de Petri estéreis.

O pH final é 7,0 ± 0,2 a 25 °C. O meio pronto é laranja-avermelhado, límpido a levemente opalescente. Um frasco de 500 g rende cerca de 7,9 L; para converter em número de placas, use o guia de como calcular meio de cultura. Conserve o pó abaixo de 30 °C e as placas prontas entre 2 e 8 °C.

Como o meio não passa por esterilização em autoclave, a técnica asséptica no preparo pesa mais. Prepare só o volume que vai usar no prazo de validade definido pelo seu laboratório e incube algumas placas sem inóculo como controle de esterilidade. Os erros gerais de preparo estão em como preparar meio de cultura desidratado.

Leitura das colônias no ágar SS

Semeie por esgotamento e leia colônias isoladas. Os exemplos abaixo vêm do controle microbiológico da ficha da Sora: inóculo de 50–100 UFC, leitura após 18–24 h a 35–37 °C. Isolados de campo podem variar.

Aspecto da colôniaLeituraCepas de referência (ficha)
Incolor com centro pretoLactose negativa, H₂S positivoSalmonella Typhimurium ATCC 14028, S. Enteritidis ATCC 13076 e S. Typhi ATCC 6539: crescimento bom a abundante, recuperação ≥ 50%
Incolor, pode ter centro pretoLactose negativa, H₂S variávelProteus mirabilis ATCC 25933: regular a bom, 30–40%
Incolor, sem centro pretoLactose negativa, H₂S negativoShigella flexneri ATCC 12022: bom, 40–50%
Rosa com precipitado biliarLactose positivaE. coli ATCC 25922: regular, 20–30%
Rosa-cremeLactose positivaKlebsiella aerogenes ATCC 13048: regular, 20–30%
Escassa ou ausenteInibidaE. faecalis ATCC 29212: nenhum a fraco, ≤ 10%

Três armadilhas de leitura:

  • Proteus imita Salmonella. Colônia incolor com centro preto também pode ser Proteus. A prova de lisina separa os dois (veja a confirmação abaixo).
  • Nem toda Salmonella produz H₂S. Na ficha do ágar XLD da Sora, S. Paratyphi A aparece sem centro preto. Uma Salmonella H₂S negativa fica igual a uma Shigella no SS.
  • Cor não identifica espécie. Toda colônia suspeita segue para provas bioquímicas e sorológicas.

Onde o ágar SS entra no fluxo de isolamento

A pesquisa de Salmonella tem quatro etapas, e o SS ocupa apenas a terceira:

  1. Pré-enriquecimento não seletivo, para recuperar células lesadas: Água Peptonada Tamponada.
  2. Enriquecimento seletivo em dois caldos: Caldo RVS e Caldo MKTTn, ou Caldo Selenito Cistina quando o método pede.
  3. Plaqueamento em dois meios seletivos diferenciais, para aumentar a chance de isolar o alvo.
  4. Confirmação das colônias suspeitas: Ágar TSI, Ágar Lisina Ferro (LIA), ureia e sorologia. No LIA, Salmonella mantém fundo alcalino (descarboxila a lisina) e produz H₂S; P. mirabilis desamina a lisina (inclinação vermelho intenso, fundo ácido); S. flexneri fica com fundo ácido e sem H₂S. A leitura completa está no guia de provas bioquímicas.

O que dizem as normas sobre o ágar SS

O SS é um meio clássico de rotina e de ensino, mas não é meio obrigatório nos principais métodos de referência para alimentos:

  • ISO 6579-1:2017 (Salmonella): o primeiro meio de plaqueamento é o XLD; o segundo fica à escolha do laboratório, desde que seja complementar ao XLD, isto é, baseado em características diagnósticas diferentes. O anexo E da norma traz opções. O SS não é exigido.
  • FDA BAM, capítulo 5 (Salmonella): o enriquecimento é semeado em ágar sulfito de bismuto, XLD e Hektoen. O SS não está entre os meios de plaqueamento do capítulo.
  • ISO 21567:2004 (Shigella): o enriquecimento é semeado em MacConkey, XLD e Hektoen. O SS também não figura no método.

Se o seu laboratório segue um desses métodos, use os meios que ele lista. O SS cabe como segunda placa, quando o método deixa a escolha ao laboratório, e na rotina de pesquisa e ensino. Para o desenho completo da análise em alimentos, veja análise microbiológica de alimentos.

Limitações do ágar SS e quando usar XLD ou Hektoen

A ficha da Sora lista três limitações:

  1. Como as exigências nutricionais variam, algumas cepas crescem pouco ou não crescem.
  2. O meio é altamente seletivo e não é recomendado como meio único para o isolamento primário de Shigella: algumas cepas podem não crescer.
  3. Alguns microrganismos não patogênicos crescem no SS e são diferenciados pela fermentação da lactose.

Os números do controle microbiológico mostram a diferença. S. flexneri ATCC 12022 tem recuperação de 40–50% no SS e de ≥ 50% no Ágar Hektoen Entérico, em ambos os casos com inóculo de 50–100 UFC. O Ágar XLD declara crescimento de S. sonnei, S. dysenteriae e S. flexneri. Quando Shigella é alvo, semeie o SS ao lado de um desses meios. A comparação detalhada está no guia de ágar XLD e ágar Hektoen.

Três placas lado a lado, ágar SS laranja, ágar XLD vermelho e ágar Hektoen verde, semeadas com a mesma amostra entérica
MeioAgentes seletivosBase diferencialSalmonella (ficha)Shigella (ficha)
Ágar SSSais biliares, verde brilhante, citratoLactose e vermelho neutro; H₂SIncolor com centro pretoIncolor
Ágar XLDDesoxicolato de sódioXilose, lactose, sacarose, lisina e vermelho de fenol; H₂SVermelha, em geral com centro pretoVermelha
Ágar HektoenSais biliaresLactose, sacarose, salicina, azul de bromotimol e fucsina ácida; H₂SAzul-esverdeada, pode ter centro pretoAzul-esverdeada

Erros comuns com o ágar SS

  1. Autoclavar ou ferver demais. O superaquecimento derruba a seletividade; a placa passa a recuperar microbiota que deveria ser inibida.
  2. Semear inóculo pesado. Mesmo seletivo, o SS satura com fezes ou enriquecimentos muito carregados. Esgote bem para ter colônias isoladas.
  3. Usar só o SS para Shigella. Algumas cepas não crescem, e o resultado negativo perde valor.
  4. Fechar o resultado pelo centro preto. Proteus e outras enterobactérias H₂S positivas também o formam.
  5. Liberar o lote sem teste. A Sora emite certificado de análise por lote, mas o lote que você reidrata é liberado pelo seu laboratório. Veja o teste de promoção de crescimento.

Os meios dessa linha que declaram uso em amostras clínicas estão em microbiologia clínica (pesquisa e ensino) e não se destinam a diagnóstico in vitro. Veja todos os meios para Salmonella e para Shigella, com composição, preparo e controle microbiológico publicados na ficha de cada um, ou consulte o Ágar Salmonella Shigella (SS). Para montar a combinação de meios do seu método, fale com a equipe técnica da Sora.

Perguntas frequentes

Para que serve o ágar SS?

Serve para isolar Salmonella e Shigella de amostras com muita microbiota entérica, como fezes e alimentos. Os sais biliares, o verde brilhante e o citrato inibem a microbiota acompanhante, e a lactose e o H₂S diferenciam as colônias.

Qual a cor da Salmonella no ágar SS?

Salmonella forma colônias incolores com centro preto, porque não fermenta a lactose e produz H₂S. Sorovares H₂S negativos ficam incolores sem centro preto, iguais a Shigella.

Pode autoclavar o ágar SS?

Não. A ficha determina dissolver o meio por fervura e não autoclavar nem superaquecer, porque o excesso de calor destrói a seletividade.

Qual a diferença entre ágar SS e ágar XLD?

O SS é mais inibitório e diferencia só pela lactose e pelo H₂S; o XLD usa xilose, lisina, lactose e sacarose e é menos inibitório para Shigella. A ISO 6579-1 exige o XLD e deixa o segundo meio à escolha do laboratório.

O ágar SS serve para isolar Shigella?

Serve, mas não sozinho. É altamente seletivo e algumas cepas de Shigella não crescem nele, por isso deve ser usado junto do XLD ou do Hektoen.

Referências bibliográficas e normas técnicas

  • International Organization for Standardization. ISO 6579-1:2017/Amd 1:2020 Microbiology of the food chain — Horizontal method for the detection, enumeration and serotyping of Salmonella — Part 1: Detection of Salmonella spp. Genebra: ISO.
  • International Organization for Standardization. ISO 21567:2004 Microbiology of food and animal feeding stuffs — Horizontal method for the detection of Shigella spp. Genebra: ISO.
  • U.S. Food and Drug Administration. Bacteriological Analytical Manual (BAM), Chapter 5: Salmonella. Edição vigente. Disponível em https://www.fda.gov/food/laboratory-methods-food/bam-chapter-5-salmonella.
  • Sora Scientific. Fichas técnicas FT-SM-00729 (Ágar Salmonella Shigella), FT-SM-00828 (Ágar XLD), FT-SM-00521 (Ágar Hektoen Entérico) e FT-SM-01628 (Ágar Lisina Ferro). Disponíveis em https://docs.sorascientific.com/.