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Artigo técnico

Provas bioquímicas em microbiologia: TSI, LIA, SIM, citrato e ureia para identificar bactérias

Equipe técnica Sora Scientific · · 9 min de leitura

Estante com tubos de provas bioquímicas: TSI com ápice vermelho e base amarela, tubo com base preta de H2S, citrato de Simmons azul e verde e ágar ureia rosa

Provas bioquímicas são testes que revelam, por mudança de cor, gás, precipitado ou crescimento, uma atividade metabólica da bactéria: fermentar açúcares, produzir sulfeto de hidrogênio (H₂S), descarboxilar ou desaminar aminoácidos, usar citrato, hidrolisar ureia, formar indol ou se mover no meio. Nenhuma prova identifica sozinha. O que identifica é o perfil de uma bateria semeada a partir de colônia pura. Para bacilos gram-negativos entéricos, a bateria clássica reúne TSI ou KIA, LIA, SIM, citrato de Simmons, ureia e descarboxilases, precedida de catalase e oxidase. A identificação definitiva ainda exige sorologia ou outro método de confirmação.

Por que as provas bioquímicas funcionam

Cada meio traz um substrato e um indicador. Se a bactéria tem a enzima, o produto muda o pH ou forma um composto visível:

  • Fermentação de açúcares: o ácido vira o indicador (vermelho de fenol fica amarelo).
  • H₂S: o tiossulfato é reduzido a sulfeto, que reage com ferro e forma precipitado preto.
  • Descarboxilação: a lisina vira cadaverina, que alcaliniza o meio; a desaminação, típica de Proteus, dá outra cor.
  • Citrato e urease: o uso do citrato como única fonte de carbono e a liberação de amônia pela urease sobem o pH.
  • Indol: a triptofanase degrada o triptofano a indol, revelado por p-dimetilaminobenzaldeído (protocolo da ASM).
  • Motilidade: em meio semissólido, a bactéria móvel cresce para fora da picada.

Quando usar: depois do isolamento, com colônia pura

As provas entram depois do isolamento em meio seletivo ou diferencial, a partir de colônia suspeita bem separada. A ficha do TSI é explícita: cultura mista gera leituras irregulares.

  1. Faça Gram, catalase e oxidase para escolher a bateria.
  2. Toque o centro de uma colônia isolada com agulha reta.
  3. Semeie o Ágar Citrato de Simmons primeiro, ou flambe a agulha antes dele: nutrientes arrastados de outro meio dão falso-positivo, segundo a ficha.
  4. Registre o tempo de incubação de cada tubo.

Para Salmonella em alimentos, o FDA BAM (capítulo 5) usa TSI e LIA em conjunto, a 35 °C por 24 ± 2 h. A ISO 6579-1 inclui TSI, ágar ureia e meio de L-lisina descarboxilase na confirmação bioquímica, seguidos da sorologia. Veja os meios para Salmonella.

Provas rápidas: catalase e oxidase

Catalase detecta a enzima que decompõe o peróxido de hidrogênio, com liberação de bolhas. Pelo protocolo da ASM, ela separa Micrococcaceae (positivas) de Streptococcaceae (negativas): é o primeiro passo nas provas bioquímicas para gram-positivas, com Staphylococcus catalase-positivo e Streptococcus catalase-negativo. Veja os meios para Staphylococcus.

Oxidase detecta a citocromo c oxidase: o reagente de tetrametil-p-fenilenodiamina forma azul de indofenol, azul-escuro ou púrpura (ASM). Nas provas bioquímicas para gram-negativas, ela separa as enterobactérias, oxidase-negativas, de não fermentadores como Pseudomonas aeruginosa.

TSI e KIA: fermentação, gás e H₂S num só tubo

O Ágar Tríplice Açúcar Ferro (TSI) tem dextrose a 1 g/L, lactose e sacarose a 10 g/L cada, vermelho de fenol, sulfato ferroso e tiossulfato. O Ágar Ferro Dois Açúcares de Kligler (KIA) segue a mesma lógica sem sacarose. Com tão pouca glicose, quem fermenta só ela acidifica pouco: o ápice, em aerobiose, volta a alcalinizar, e a base, em anaerobiose, fica ácida.

Preparo (fichas): TSI a 64,52 g/L e KIA a 57,52 g/L, pH 7,4 ± 0,2, 121 °C por 15 minutos, solidificados inclinados com fundo de cerca de 1 polegada. A ficha do KIA pede meio recém-preparado e veta tubo com tampa de rosca.

Semeadura: com agulha, pique a base até o fundo, retire e estrie o ápice. A ficha do TSI proíbe a alça na picada, porque a ruptura do ágar simula gás. Incube com tampa frouxa, para o ar manter o ápice alcalino. As fichas leem a 35–37 °C em 18–48 h; o protocolo de Lehman (Microbe Library), a 37 °C em 18 a 24 h.

Ápice/baseCorLeitura
K/Avermelho/amareloSó glicose fermentada
A/Aamarelo/amareloLactose e/ou sacarose fermentadas (no KIA, lactose)
K/Kvermelho/vermelhoNenhum açúcar fermentado; peptonas consumidas
Bolhas, ágar rompido ou deslocado—Gás
Base preta—H₂S
Sete tubos de ágar TSI inclinados com reações diferentes: ápice vermelho com base preta de H₂S, ápice vermelho com base amarela, tubo todo vermelho e tubo todo amarelo

TSI ou KIA? A sacarose do TSI separa fermentadores de sacarose que não fermentam lactose, como alguns Proteus e Citrobacter spp. Em troca, a ficha registra que o H₂S pode aparecer no KIA e não no TSI, porque a sacarose pode suprimir a produção de H₂S, e que nem toda Salmonella H₂S-positiva é positiva no TSI.

LIA: descarboxilação ou desaminação da lisina

O Ágar Lisina Ferro (LIA) combina lisina (10 g/L), glicose (1 g/L), indicador de H₂S e púrpura de bromocresol, amarela em pH ≤ 5,2 e púrpura em pH ≥ 6,8. Preparo: 34,56 g/L, pH 6,7 ± 0,2, 121 °C por 15 minutos, inclinado com fundo profundo. Pique a base, estrie o ápice e leia a 35–37 °C em 18–24 h (ficha).

Ápice/baseLeitura
Púrpura/púrpura (K/K)Lisina descarboxilada
Púrpura/amarelo (K/A)Só glicose fermentada, sem descarboxilação
Vermelho intenso/amarelo (R/A)Desaminação da lisina (Proteus mirabilis na ficha)
Base pretaH₂S

A ficha avisa que Salmonella Paratyphi A não descarboxila a lisina (K/A), que alguns Proteus H₂S-positivos não enegrecem o LIA, por isso o uso junto do TSI, e que Morganella morganii pode exigir incubação mais longa.

SIM: sulfeto, indol e motilidade

O Meio SIM é semissólido (ágar 3 g/L) e rico em peptona, fonte de triptofano. Preparo: 36,23 g/L, pH 7,3 ± 0,2, 121 °C por 15 minutos, tubos em pé. Semeie com uma picada reta no centro e incube a 35–37 °C por 18–24 h.

Leia motilidade (crescimento afastado da picada, com turvação) e H₂S (enegrecimento) antes de adicionar o reagente de Kovács; o indol positivo forma anel vermelho na superfície.

Citrato de Simmons: citrato como única fonte de carbono

O citrato de sódio é a única fonte de carbono e o fosfato monoamônico, a única de nitrogênio. Quem usa os dois cresce e alcaliniza o meio, que passa de verde para azul (azul de bromotimol). Preparo: 24,28 g/L, pH 6,8 ± 0,2, 121 °C por 15 minutos; a ficha pede água com pH entre 6,5 e 7,0, senão a cor inicial se desvia. Estrie levemente e incube a 35–37 °C por 18–24 h; alguns positivos precisam de 48 h ou mais.

Com indol, vermelho de metila e Voges-Proskauer (no Caldo VM-VP), o citrato compõe o IMViC, que diferencia Escherichia coli do grupo aerogenes.

Ureia de Christensen: urease

A amônia vira o vermelho de fenol de amarelo (pH 6,8) para rosa-avermelhado (pH 8,1). Há duas bases: o Ágar Base Ureia de Christensen (autoclavável), para isolados de amostras clínicas, alimentos e água, e o Ágar Base Ureia de Christensen (ISO 6579-1), com composição e critérios de desempenho de acordo com a ISO 6579-1:2017. Nas duas: 24,01 g em 950 mL, 115 °C por 20 minutos, resfriar a 45–50 °C e adicionar assepticamente 50 mL de solução estéril de ureia a 40%. Não reaqueça: a ureia se decompõe com facilidade.

Proteus urease-positivo vira o meio nas primeiras 2 a 6 horas; Klebsiella, Enterobacter e Citrobacter urease-positivos podem levar 3 a 5 dias. Alcalinização tardia pode vir do consumo de peptona (ex.: P. aeruginosa); na dúvida, faça um controle com o meio sem ureia.

Descarboxilases: caldo lisina e base de Moeller

O Caldo Lisina Descarboxilase (14,02 g/L, pH 6,8 ± 0,2) vai em 5 mL por tubo, a 121 °C por 15 minutos, coberto com 2 a 3 mL de óleo mineral estéril. A glicose fermentada deixa o meio amarelo; o ácido ativa a descarboxilase, a cadaverina alcaliniza e o meio volta a púrpura. Amarelo persistente é negativo. Use inóculo leve e não encerre a leitura em 24 h: algumas cepas levam até 4 dias.

Para lisina, arginina e ornitina, o Caldo Base de Moeller para Descarboxilase recebe 10 g/L do L-aminoácido (2% se DL), pH 6,0 ± 0,2, 121 °C por 10 minutos e óleo mineral; com ornitina, reajuste o pH. Um tubo de base sem aminoácido, semeado junto, ajuda a confirmar que o púrpura veio da descarboxilação.

Tabela-resumo: perfis das cepas de referência

Perfis declarados no controle microbiológico das fichas técnicas da Sora. Isolados de campo variam.

ProvaE. coli ATCC 25922S. Typhimurium ATCC 14028Shigella flexneri ATCC 12022P. mirabilis ATCC 25933Klebsiella pneumoniae ATCC 13883
TSIA/A, gás+, H₂S−K/A, gás+, H₂S+K/A, gás−, H₂S−n.d.*A/A, gás+, H₂S−
LIAK/K, H₂S−K/K, H₂S+K/A, H₂S−R/A, H₂S+n.d.
SIM (H₂S/indol/motilidade)−/+/++/−/+−/−/−n.d.−/−/−
Citrato de Simmons− (inibida)+n.d.n.d.n.d.
Ureia−−n.d.++
Lisina (Moeller)+n.d.−−+
Ornitina (Moeller)variáveln.d.−+−

n.d.: cepa fora do controle da ficha desse meio. No KIA, *Proteus vulgaris ATCC 6380 dá K/A, sem gás, com H₂S.

As fichas mostram variação dentro de Salmonella: S. Typhi ATCC 6539 é K/A sem gás e com H₂S no TSI e citrato-negativa; S. Paratyphi A é H₂S-negativa e lisina-negativa.

Limitações

  • Perfis atípicos. Há Salmonella H₂S-negativa e Salmonella fermentadora de lactose ou sacarose, com ápice amarelo no TSI; por isso a triagem bioquímica sozinha não basta para descartar um isolado suspeito.
  • Tempo de leitura. Ureia lida tarde, descarboxilase lida cedo e citrato encerrado em 24 h erram nos dois sentidos.
  • Sistemas comerciais (galerias miniaturizadas, painéis automatizados) comparam o perfil com um banco de dados e valem para os táxons validados pelo fabricante do sistema.
  • Confirmação. Para Salmonella, a ISO 6579-1 e o BAM completam a bioquímica com sorologia (antígenos O, H e Vi); métodos moleculares e espectrometria de massas também são usados.
  • Controle do lote. A Sora emite certificado de análise por lote, mas o meio reidratado no seu laboratório é liberado por você, com cepas de referência: veja o teste de promoção de crescimento e como preparar meio de cultura desidratado.

Monte a bateria do seu laboratório

Todos os meios citados estão em Identificação bioquímica, com composição, preparo e controle microbiológico na ficha técnica. Veja também os meios para enterobactérias e, para ensino e pesquisa, a seleção de microbiologia clínica (pesquisa e ensino). Os produtos são para uso laboratorial profissional, sem finalidade diagnóstica in vitro. Para definir a bateria e as cepas de controle do seu POP, fale com a equipe técnica da Sora.

Perguntas frequentes

O que são provas bioquímicas em microbiologia?

São testes que mostram uma atividade metabólica da bactéria, como fermentar açúcares, produzir H₂S, hidrolisar ureia ou usar citrato, por mudança de cor, gás ou crescimento. O conjunto dos resultados forma um perfil que orienta a identificação, completada por sorologia ou outro método.

Como se lê o ágar TSI?

Ápice vermelho e base amarela (K/A) indicam que só a glicose foi fermentada; ápice e base amarelos (A/A), fermentação de lactose e/ou sacarose; tudo vermelho, nenhum açúcar fermentado. Bolhas ou ágar rompido indicam gás, e base preta indica H₂S.

Quais provas bioquímicas identificam *Salmonella*?

A triagem clássica usa TSI (K/A, em geral com H₂S) e LIA (púrpura, lisina descarboxilada), com ureia negativa. A ISO 6579-1 e o FDA BAM completam a confirmação com a sorologia dos antígenos O, H e Vi.

Qual o perfil bioquímico de *E. coli*?

No controle das fichas Sora, E. coli ATCC 25922 é A/A com gás e sem H₂S no TSI, indol-positiva e móvel no SIM, citrato-negativa, urease-negativa e lisina-positiva no meio de Moeller. Isolados de campo podem variar.

Para que serve o teste de catalase?

Ele mostra se a bactéria decompõe peróxido de hidrogênio, com liberação de bolhas. É a primeira prova para gram-positivos: Staphylococcus é catalase-positivo e Streptococcus, catalase-negativo.

Por que semear o citrato de Simmons antes dos outros meios?

Porque nutrientes arrastados de outro meio na agulha podem permitir crescimento e dar falso-positivo. A ficha recomenda semear o citrato primeiro ou flambar a agulha antes.

Referências bibliográficas e normas técnicas

  • American Society for Microbiology. Triple Sugar Iron Agar Protocols. ASM Education, 2005. Disponível em https://asm.org/protocols/triple-sugar-iron-agar-protocols.
  • Lehman, D. Triple Sugar Iron Agar: Protocol. Microbe Library, University of Delaware, Department of Medical Technology. Disponível em https://www1.udel.edu/mls/dlehman/tsi/protocol.html.
  • American Society for Microbiology. Citrate Test Protocol. ASM Education, 2009. Disponível em https://asm.org/protocols/citrate-test-protocol.
  • American Society for Microbiology. Catalase Test Protocol. ASM Education, 2010. Disponível em https://asm.org/protocols/catalase-test-protocol.
  • American Society for Microbiology. Oxidase Test. ASM Education, 2019. Disponível em https://asm.org/protocols/oxidase-test-protocol.
  • American Society for Microbiology. Indole Test. ASM Education, 2019. Disponível em https://asm.org/protocols/indole-test-protocol.
  • U.S. Food and Drug Administration. Bacteriological Analytical Manual, Chapter 5: Salmonella. FDA, edição vigente. Disponível em https://www.fda.gov/food/laboratory-methods-food/bam-chapter-5-salmonella.
  • International Organization for Standardization. ISO 6579-1:2017 Microbiology of the food chain — Horizontal method for the detection, enumeration and serotyping of Salmonella — Part 1: Detection of Salmonella spp. Genebra: ISO, 2017; Amendment 1:2020.
  • Sora Scientific. Fichas técnicas FT-SM-07021 (Ágar Tríplice Açúcar Ferro), FT-SM-15024 (Ágar Ferro Dois Açúcares de Kligler), FT-SM-01628 (Ágar Lisina Ferro), FT-SM-08029 (Meio SIM), FT-SM-03624 (Ágar Citrato de Simmons), FT-SM-16220 e FT-SM-08227 (Ágar Base Ureia de Christensen), FT-SM-06825 (Caldo Lisina Descarboxilase) e FT-SM-12021 (Caldo Base de Moeller para Descarboxilase). Disponíveis em https://docs.sorascientific.com/.
  • Crédito da imagem dos tubos de TSI: foto de Microrao, Wikimedia Commons, domínio público (original); recortada.