Ágar MacConkey: para que serve, composição e como interpretar as colônias
O ágar MacConkey é um meio seletivo e diferencial para bastonetes gram-negativos não exigentes, sobretudo enterobactérias. É seletivo porque os sais biliares e o cristal violeta inibem as bactérias gram-positivas, e diferencial porque separa quem fermenta a lactose (colônias rosa a vermelhas) de quem não fermenta (colônias incolores). É assim que o protocolo da American Society for Microbiology (ASM) descreve o meio. A ficha técnica do Ágar MacConkey da Sora declara o mesmo uso: isolamento seletivo e diferenciação de Escherichia coli e de outras bactérias entéricas, no ensaio de limite microbiano harmonizado (USP/EP/BP/JP) e em amostras de alimentos, laticínios e água.
O meio não identifica espécie: a cor orienta o próximo passo, e a confirmação depende de provas bioquímicas e sorológicas, limitação que a própria ficha registra.
Composição do ágar MacConkey e função de cada componente
Os valores abaixo são os da ficha técnica da Sora e coincidem com a formulação do meio M91 do FDA BAM.
| Componente | g/L (ficha) | Função |
|---|---|---|
| Digesto pancreático de gelatina | 17,00 | Nitrogênio, aminoácidos e fatores de crescimento |
| Peptonas (carne e caseína) | 3,00 | Nutrientes complementares |
| Lactose monoidratada | 10,00 | Carboidrato fermentável, base da diferenciação |
| Cloreto de sódio | 5,00 | Equilíbrio osmótico |
| Sais biliares | 1,50 | Inibem gram-positivos |
| Vermelho neutro | 0,030 | Indicador de pH |
| Cristal violeta | 0,001 | Reforça a inibição de gram-positivos |
| Ágar | 13,50 | Solidificante |
Preparo pela ficha: 49,53 g em 1000 mL de água purificada, aquecer até a ebulição, autoclavar a 121 °C por 15 minutos (ou ciclo validado), resfriar a 45–50 °C e verter. O pH final é 7,1 ± 0,2 a 25 °C, o meio pronto fica vermelho com nuance arroxeada, límpido a levemente opalescente, e a superfície precisa estar seca na inoculação. O passo a passo geral está em como preparar meio de cultura desidratado.
O ágar MacConkey é seletivo?
Sim, de forma moderada. Segundo a ASM, o cristal violeta e os sais biliares impedem o crescimento de gram-positivos e de gram-negativos exigentes, como Neisseria e Pasteurella. No controle microbiológico da ficha, Staphylococcus aureus (ATCC 25923 e 6538), Staphylococcus epidermidis ATCC 12228 e Corynebacterium diphtheriae tipo gravis são inibidos com inóculo ≥ 10³ UFC, e Enterococcus faecalis ATCC 29212 tem crescimento nenhum a fraco (recuperação ≤ 10%).
Como funciona a fermentação da lactose
Quem fermenta a lactose acidifica o meio ao redor da colônia. O vermelho neutro fica vermelho abaixo de pH 6,8, é absorvido pelas células e a colônia aparece rosa a vermelha. Fermentadores fortes produzem ácido suficiente para precipitar os sais biliares, formando um halo turvo em volta da colônia; fermentadores fracos ficam rosados, mas sem halo (ASM). Quem não fermenta cresce incolor, e o ágar ao redor continua transparente.
Interpretação das colônias no ágar MacConkey
Leia colônias bem isoladas: a ASM observa que a boa separação é o que garante a diferenciação. Os exemplos vêm do controle microbiológico da ficha da Sora (cepas de referência a 30–35 °C) e do protocolo da ASM; isolados de campo podem variar.
| Aspecto da colônia | Leitura | Exemplos documentados |
|---|---|---|
| Rosa a vermelha, com halo turvo de bile precipitada | Lactose positiva, fermentação forte | E. coli ATCC 8739, ATCC 25922 e NCTC 9002 (ficha) |
| Rosa a vermelha, sem halo | Lactose positiva, fermentação mais fraca | Klebsiella aerogenes ATCC 13048: rosa a vermelho (ficha) |
| Incolor, translúcida, meio ao redor inalterado | Lactose negativa | Salmonella Typhimurium, Enteritidis, Typhi, Paratyphi A e B; Proteus vulgaris ATCC 13315; Shigella flexneri ATCC 12022 (ficha); Serratia marcescens (ASM) |
| Puntiforme, incolor a rosa-pálida, escassa | Gram-positivo parcialmente inibido | E. faecalis ATCC 29212 (ficha) |
| Sem crescimento | Inibido | S. aureus, S. epidermidis, C. diphtheriae (ficha) |
Dois cuidados. Lactose positiva não é sinônimo de E. coli: outros coliformes também ficam rosados. Incolor não é sinônimo de Salmonella: Proteus e Serratia também são incolores. Nos dois casos, a colônia segue para os meios de identificação bioquímica.
Aplicações: farmacêutico, alimentos, água e ensino
Farmacêutico e cosmético. Na pesquisa de E. coli da USP <62> e da Ph. Eur. 2.6.13, a amostra passa por caldo caseína-soja, caldo MacConkey a 42–44 °C por 24–48 h e semeadura em ágar MacConkey a 30–35 °C por 18–72 h; colônias com bile precipitada indicam possível E. coli, a confirmar. A ficha da Sora declara promoção de crescimento com E. coli ATCC 8739 (inóculo 50–100 UFC, recuperação ≥ 50% em relação ao Ágar Triptona de Soja). A liberação do lote está no guia de teste de promoção de crescimento; veja também a seleção para farmacêutico e esterilidade.
Alimentos e água. O FDA BAM inclui o MacConkey entre os seus meios (M91). Já a contagem de enterobactérias da ISO 21528-2 usa outro meio, o VRBG: confira sempre o meio que o seu método de referência pede. Mais opções em alimentos e laticínios e água e efluentes.
Microbiologia clínica (pesquisa e ensino). No ensino, o MacConkey é o exemplo clássico de meio seletivo e diferencial, semeado ao lado de um meio não seletivo para comparar o que cada um recupera. Os meios dessa linha estão em microbiologia clínica (pesquisa e ensino) e não se destinam a diagnóstico in vitro.
Variantes: MacConkey sorbitol e caldo MacConkey
MacConkey sorbitol. O Ágar Base MacConkey Sorbitol troca a lactose por D-sorbitol 10 g/L. E. coli O157:H7 não fermenta o sorbitol e forma colônias transparentes, enquanto a maior parte da microbiota fecal fica rosa. A ficha declara composição e desempenho de acordo com a ISO 16654:2001/Amd 2:2023, com suplemento de telurito e cefixima adicionado a 45–50 °C e incubação a 37 ± 1 °C por 21 ± 3 h, e avisa que algumas cepas não toxigênicas também não fermentam o sorbitol: o meio não basta sozinho.
Caldo MacConkey. O Caldo MacConkey com Vermelho Neutro não leva ágar nem cristal violeta, tem sais biliares 5 g/L e pH 7,4 ± 0,2, e é usado com tubo de Durham para enriquecimento e contagem de coliformes em alimentos e água: fermentadores de lactose deixam o meio rosado e produzem gás. O caldo MacConkey do método farmacopeico tem formulação própria, com outro indicador; confira a composição exigida antes de substituir.
MacConkey, EMB e ágar sangue: qual a diferença
O Ágar EMB Levine também diferencia pela lactose, mas com eosina Y e azul de metileno em vez de bile e vermelho neutro. Na ficha, E. coli forma colônias azul-negras com brilho metálico, e K. aerogenes, rosa-avermelhadas. O EMB é agitado após a autoclavagem e guardado ao abrigo da luz.
O ágar sangue é o oposto: não seletivo e enriquecido, recupera gram-positivos e gram-negativos exigentes e mostra a hemólise. Por isso os dois costumam ir juntos: o ágar sangue mostra tudo o que cresce, e o MacConkey separa os gram-negativos pela lactose. Veja como preparar ágar sangue.
| Meio | Seletividade | Diferencial | E. coli |
|---|---|---|---|
| Ágar MacConkey | Sais biliares e cristal violeta | Lactose e vermelho neutro | Rosa a vermelha, com bile precipitada (ficha) |
| Ágar EMB Levine | Eosina e azul de metileno | Lactose | Azul-negra com brilho metálico (ficha) |
| Ágar sangue | Nenhuma | Hemólise | Cresce, sem diferenciação por lactose |
Erros comuns com o ágar MacConkey
- Superaquecer ou refundir o meio. Fora do ciclo de 121 °C por 15 minutos, o meio tende a escurecer ou amolecer. Se a cor não for o vermelho com nuance arroxeada da ficha, descarte o lote preparado.
- Usar placa úmida. A ficha exige superfície seca, e o BAM é explícito: não use placas molhadas. O condensado espalha as colônias e impede o isolamento.
- Usar placa velha. Conserve o meio preparado entre 2 e 8 °C, dentro da validade definida pelo seu laboratório; placa ressecada ou escurecida prejudica a leitura.
- Incubar demais. As cepas de teste da ficha são lidas em 18–24 h; até 72 h é o prazo do ensaio farmacopeico. Leia no prazo do método que você segue: fora dele, a comparação com as cores e os halos descritos deixa de valer.
- Ignorar o espraiamento (swarming) de Proteus. Algumas cepas de Proteus podem se espalhar pela superfície e encobrir outras colônias. Semeie por esgotamento e repique cedo as colônias isoladas.
- Fechar a identificação pela cor. Rosa ou incolor é orientação; confirme com provas bioquímicas e, se indicado, sorológicas.
Veja todos os meios para Escherichia coli e coliformes e para enterobactérias, com composição, pH, preparo e controle microbiológico publicados na ficha de cada um. A Sora emite certificado de análise por lote; o lote que você reidrata continua sendo liberado pelo seu laboratório. Para definir o meio do seu método, fale com a equipe técnica da Sora.
Perguntas frequentes
Para que serve o ágar MacConkey?
Serve para isolar bastonetes gram-negativos não exigentes, sobretudo enterobactérias, e separá-los pela fermentação da lactose. Os sais biliares e o cristal violeta inibem gram-positivos, e o vermelho neutro mostra quem fermenta a lactose.
O ágar MacConkey é seletivo ou diferencial?
É os dois. É seletivo porque inibe gram-positivos e gram-negativos exigentes, e diferencial porque fermentadores de lactose formam colônias rosa a vermelhas e não fermentadores formam colônias incolores.
Qual a cor de *E. coli* no ágar MacConkey?
E. coli forma colônias rosa a vermelhas, em geral com halo turvo de bile precipitada, porque fermenta a lactose com intensidade. A cor sugere, mas não confirma, a espécie.
O que significa colônia lactose positiva no MacConkey?
Significa que a bactéria fermentou a lactose e acidificou o meio, e o vermelho neutro ficou rosa a vermelho abaixo de pH 6,8. Colônias lactose negativas ficam incolores e o ágar ao redor continua transparente.
Qual a diferença entre ágar sangue e ágar MacConkey?
O ágar sangue é não seletivo e enriquecido, recupera gram-positivos e gram-negativos e mostra a hemólise. O ágar MacConkey é seletivo para gram-negativos e diferencia pela lactose, por isso os dois costumam ser usados juntos.
Referências bibliográficas e normas técnicas
- Allen, M. E. MacConkey Agar Plates Protocols. American Society for Microbiology, 30 set. 2005. Disponível em https://asm.org/protocols/macconkey-agar-plates-protocols.
- U.S. Food and Drug Administration. Bacteriological Analytical Manual (BAM), Media M91: MacConkey Agar. Disponível em https://www.fda.gov/food/laboratory-methods-food/bam-media-m91-macconkey-agar.
- United States Pharmacopeia. General Chapter <62> Microbiological Examination of Nonsterile Products: Tests for Specified Microorganisms. USP–NF, edição vigente.
- European Pharmacopoeia. 2.6.13 Microbiological examination of non-sterile products: test for specified micro-organisms. Estrasburgo: EDQM, edição vigente.
- International Organization for Standardization. ISO 16654:2001 Microbiology of food and animal feeding stuffs — Horizontal method for the detection of Escherichia coli O157 e Amd 2:2023 Inclusion of performance testing of all culture media and reagents. Genebra: ISO.
- International Organization for Standardization. ISO 21528-2 Microbiology of the food chain — Horizontal method for the detection and enumeration of Enterobacteriaceae — Part 2: Colony-count technique. Genebra: ISO, edição vigente.
- Sora Scientific. Fichas técnicas FT-SM-00620 (Ágar MacConkey), FT-SM-03020 (Ágar Base MacConkey Sorbitol), FT-SM-12427 (Caldo MacConkey com Vermelho Neutro) e FT-SM-05421 (Ágar EMB Levine). Disponíveis em https://docs.sorascientific.com/.
