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Artigo técnico

Ágar Mueller Hinton e caldo Mueller Hinton: para que servem, preparo e controle de qualidade no antibiograma

Equipe técnica Sora Scientific · · 10 min de leitura

Placa de Petri com ágar Mueller Hinton, crescimento bacteriano confluente e discos de antibiótico cercados por halos de inibição de tamanhos diferentes, antibiograma por disco-difusão

O ágar Mueller Hinton é o meio de referência do teste de sensibilidade a antimicrobianos por disco-difusão, o antibiograma pelo método de Kirby-Bauer. O caldo Mueller Hinton é a mesma base sem ágar, usada nos métodos de diluição que determinam a concentração inibitória mínima (CIM). Os dois são adotados pelos documentos do CLSI e do EUCAST, este seguido no Brasil pelo BrCAST, porque a composição é simples e reprodutível e porque os fatores que alteram o resultado (profundidade, pH, cátions e timidina) podem ser controlados. Segundo as fichas técnicas da Sora, o ágar é reconstituído a 38 g/L e o caldo a 21 g/L, ambos com pH final de 7,3 ± 0,1 a 25 °C.

Este guia trata do meio. Inóculo, carga dos discos, pontos de corte e faixas de controle são definidos pelo documento de referência que o seu laboratório adota (CLSI M02 e M07 ou o método BrCAST/EUCAST), e é ele que manda.

O que é o meio Mueller Hinton

O meio foi descrito em 1941 por J. Howard Mueller e Jane Hinton para o isolamento primário do gonococo e do meningococo; por isso a ficha do ágar ainda declara o cultivo de Neisseria. Em 1966, Bauer, Kirby, Sherris e Turck publicaram o método padronizado de disco único sobre ágar Mueller Hinton, origem do "Kirby-Bauer".

Hoje, três sistemas definem o método:

  • CLSI: M02 (disco-difusão, 14ª ed., 2024), M07 (diluição, 12ª ed., 2024) e as tabelas do M100 (36ª ed., 2026).
  • EUCAST: manual de disco-difusão (versão 13.0, janeiro de 2025) e documento de preparo de meios (versão 8.0, janeiro de 2026).
  • BrCAST (Comitê Brasileiro de Testes de Sensibilidade aos Antimicrobianos): publica em português o método de disco-difusão, a tabela de controle de qualidade e os pontos de corte clínicos, alinhados ao EUCAST.

Os sistemas diferem nos meios para exigentes, nas cepas de controle e nos pontos de corte. Escolha um e siga-o por inteiro: halo medido por um método e interpretado pela tabela do outro não tem validade.

Composição e função de cada ingrediente

As fichas da Sora declaram a mesma base para o ágar e o caldo:

Ingredienteg/LFunção
Infusão de carne (a partir de 300 g)300,00Compostos nitrogenados, carbono, enxofre e outros nutrientes
Hidrolisado ácido de caseína17,50Aminoácidos e nitrogênio
Amido1,50Absorve substâncias tóxicas; no caldo, sua hidrólise libera dextrose como fonte de energia
Ágar (só no ágar)17,00Agente solidificante

A fórmula não tem indicadores nem agentes seletivos: o meio precisa sustentar crescimento confluente e deixar o antimicrobiano difundir sem interferência.

Por que o meio é padronizado: o que muda o halo

O diâmetro do halo depende do meio tanto quanto da bactéria. A ficha do ágar lista as variáveis que mais deslocam o resultado.

Profundidade de 4 mm

Ágar com mais de 4 mm pode dar resultado falso-resistente; com menos de 4 mm, falso-sensível. O EUCAST pede 4,0 ± 0,5 mm e cita volumes aproximados de 25 mL na placa de 90 mm, 31 mL na de 100 mm e 71 mL na de 150 mm, mas recomenda calcular pelo diâmetro real da placa. A conta está no guia como calcular meio de cultura.

pH entre 7,2 e 7,4

A ficha especifica 7,3 ± 0,1. Com pH baixo, aminoglicosídeos e macrolídeos parecem perder potência e outros antimicrobianos aparentam atividade excessiva; com pH alto, o efeito se inverte.

Cátions divalentes (cálcio e magnésio)

O teor de cálcio e magnésio afeta aminoglicosídeos, tetraciclina e colistina frente a Pseudomonas aeruginosa: cátions demais reduzem o halo; de menos, o aumentam. Nos métodos de diluição, o CLSI M07 e a ISO 20776-1:2019 usam caldo Mueller Hinton ajustado em cátions. A faixa de 20 a 25 mg/L de cálcio e 10 a 12,5 mg/L de magnésio vem do estudo de Barry e colaboradores (1992) sobre P. aeruginosa e aminoglicosídeos.

Timidina e timina

Em excesso, revertem o efeito das sulfonamidas e da trimetoprima, e os halos ficam menores ou pouco nítidos. Na abordagem do CLSI, o teor de timidina do lote é verificado com Enterococcus faecalis ATCC 29212 frente a um disco de sulfametoxazol-trimetoprima.

CO₂, umidade e tempo

O CO₂ altera os halos de aminoglicosídeos, macrolídeos e tetraciclinas, e a ficha orienta não incubar o ágar Mueller Hinton em CO₂ no teste dos não exigentes. Não pode haver gotículas na superfície nem na tampa, e o meio deve ser inoculado em até 15 minutos após o ajuste da suspensão.

Como preparar o ágar e o caldo Mueller Hinton

Ágar, conforme a ficha:

  1. Suspenda 38 g em 1.000 mL de água purificada ou destilada.
  2. Aqueça até a ebulição, até dissolver completamente.
  3. Esterilize em autoclave a 121 °C por 15 minutos.
  4. Resfrie a 45–50 °C, homogeneíze e distribua sobre superfície nivelada, no volume que dá 4 mm.
  5. Depois de solidificado, confira o pH e deixe a superfície sem umidade visível antes de usar.

O frasco de 500 g rende 13,157 L, cerca de 526 placas de 90 mm a 25 mL. O pó é conservado abaixo de 30 °C e as placas, entre 2 e 8 °C.

Caldo: suspenda 21 g em 1.000 mL de água destilada, ferva para dissolver (a fervura antes da autoclave evita que o amido sedimente), esterilize a 121 °C por 15 minutos e homogeneíze antes de distribuir. A ficha pede meio recém-preparado. O frasco de 500 g rende 23,8 L.

Os erros gerais de pesagem, dissolução e superaquecimento estão no guia como preparar meio de cultura desidratado.

Disco-difusão (Kirby-Bauer) no ágar Mueller Hinton

O teste parte de cultura pura, como a ficha exige; colônias isoladas por semeadura por esgotamento evitam halos com crescimento misto. A suspensão é ajustada ao padrão 0,5 de McFarland, que o EUCAST relaciona a cerca de 1–2 × 10⁸ UFC/mL para Escherichia coli.

O EUCAST resume os tempos na regra 15-15-15: usar a suspensão em até 15 minutos, aplicar os discos em até 15 minutos após a semeadura e incubar em até 15 minutos após aplicar os discos. Enterobactérias e Pseudomonas spp. são incubadas a 35 ± 1 °C por 18 ± 2 h, em ar. No Mueller Hinton sem sangue, a leitura é feita pelo fundo da placa, sobre fundo escuro e com luz refletida, e o halo é interpretado pela tabela de pontos de corte do mesmo sistema.

Leitura dos halos de inibição em placa de ágar Mueller Hinton sobre fundo preto, sob luz refletida, com as bordas dos halos bem definidas ao redor dos discos

A ficha registra outro limite: a disco-difusão serve a microrganismos de crescimento rápido. Incubações longas podem inativar o antimicrobiano.

Caldo Mueller Hinton e determinação da CIM

Na diluição em caldo, o antimicrobiano é diluído em série no meio e a CIM é a menor concentração sem crescimento visível. O CLSI M07 descreve a macrodiluição, a microdiluição em caldo e a diluição em ágar; a ISO 20776-1:2019 define a microdiluição em caldo como método de referência para bactérias aeróbias de crescimento rápido, e o EUCAST a segue.

Microplaca de 96 poços com caldo Mueller Hinton em diluições seriadas de antimicrobiano, poços turvos e límpidos mostrando o gradiente da concentração inibitória mínima (CIM)

A ficha do caldo da Sora declara uso na sensibilidade às sulfonamidas por diluição em tubo e no isolamento primário de gonococos e meningococos. Ela não declara ajuste de cátions: para a microdiluição de referência, suplemente cálcio e magnésio conforme o documento adotado e confirme o lote com as cepas de controle antes de liberar.

Mueller Hinton com sangue e meios para exigentes

Estreptococos, Haemophilus e Neisseria não crescem bem no Mueller Hinton puro, e aqui os sistemas divergem:

  • EUCAST/BrCAST: usa o MH-F, ágar Mueller Hinton com 5% de sangue de cavalo desfibrinado mecanicamente e 20 mg/L de β-NAD, incubado em 4–6% de CO₂. O EUCAST passou a aceitar placas com sangue de carneiro (MH-S) no lugar do de cavalo, exceto para Haemophilus spp.
  • CLSI: usa Mueller Hinton com 5% de sangue de carneiro para estreptococos e Neisseria meningitidis, o Haemophilus Test Medium (HTM) para Haemophilus influenzae e a base de ágar GC com suplemento de crescimento definido para Neisseria gonorrhoeae.

O sangue interfere no resultado. A ficha da Sora alerta que os halos de oxacilina e meticilina podem ficar 2 a 3 mm menores que no ágar sem sangue, que o sangue de carneiro pode aumentar muito os halos de algumas cefalosporinas frente a enterococos e que pode deixar halos pouco nítidos com sulfonamidas e trimetoprima.

O ágar Mueller Hinton da Sora serve de base para a placa com sangue; a técnica de adição está no guia como preparar ágar sangue, e a base GC e o ágar chocolate, no guia ágar sangue e ágar chocolate. Para H. influenzae, o catálogo tem o Ágar Base HTM para Haemophilus, usado com o Suplemento de Crescimento para Haemophilus.

Controle de qualidade com cepas de referência

A ficha do ágar declara crescimento abundante após 18–24 h a 36–37 °C de E. coli ATCC 25922 e ATCC 35218, P. aeruginosa ATCC 27853, Staphylococcus aureus ATCC 25923 e ATCC 43300 e E. faecalis ATCC 29212. A do caldo declara crescimento abundante de E. coli ATCC 25922, P. aeruginosa ATCC 27853, S. aureus ATCC 25923, E. faecalis ATCC 19433 e Streptococcus pneumoniae ATCC 49619. A Sora emite certificado de análise por lote, depois do envase.

Crescer bem, porém, não prova que o halo está certo. O controle do antibiograma é feito com discos sobre as cepas de controle, comparando halos (ou CIMs) com as faixas da tabela vigente do seu sistema: o CLSI M100, as tabelas de CQ do EUCAST (versão 16.0, de 2026) ou a tabela de CQ de rotina e estendido do BrCAST. As cepas mudam entre sistemas: o CLSI usa S. aureus ATCC 25923 na disco-difusão e ATCC 29213 na CIM; o EUCAST usa ATCC 29213 nos dois. A placa que você prepara é um lote novo, liberado pelo seu laboratório com os critérios do guia do teste de promoção de crescimento somados ao controle com discos.

A ficha do ágar declara padronização conforme o documento M06 do CLSI. Esse protocolo de avaliação de lotes de Mueller Hinton desidratado foi incorporado à ISO/TS 16782:2016, que define critérios de aceitação de lotes de ágar e caldo Mueller Hinton para teste de sensibilidade.

Erros comuns no antibiograma

SinalCausa provávelO que fazer
Halos pequenos em várias cepas de controleÁgar acima de 4 mm ou inóculo acima de 0,5 McFarlandRecalcular o volume por placa; reajustar a suspensão
Halos grandes em várias cepasÁgar fino ou inóculo leveMesmo ajuste, no sentido oposto
Aminoglicosídeos fora da faixa com P. aeruginosaCátions fora do teor ou pH desviadoConferir pH; no caldo, revisar o ajuste de cátions
Halos de sulfametoxazol-trimetoprima pequenos ou nebulososTimidina no meio ou sangue na placaVerificar o lote com E. faecalis ATCC 29212
Macrolídeos e aminoglicosídeos com halos menores em não exigentesIncubação em CO₂Incubar em ar
Colônias dentro do haloCultura mista ou subpopulaçãoReisolar e repetir com cultura pura
Crescimento irregular, discos deslizandoUmidade na superfícieSecar as placas antes de semear

Próximo passo

Se a sua rotina inclui antibiograma por disco-difusão ou CIM, consulte a ficha técnica do ágar Mueller Hinton e do caldo Mueller Hinton, com composição, preparo, limitações e cepas de controle publicados, ou veja a seleção de meios para antibiograma e sensibilidade. Para dúvidas sobre preparo, suplementação ou meios para exigentes, fale com a equipe técnica da Sora.

Perguntas frequentes

Para que serve o ágar Mueller Hinton?

O ágar Mueller Hinton é o meio de referência do antibiograma por disco-difusão (Kirby-Bauer), usado para medir a sensibilidade de bactérias de crescimento rápido a antimicrobianos. A ficha da Sora também declara o cultivo de Neisseria, finalidade original do meio.

Qual a diferença entre ágar e caldo Mueller Hinton?

Os dois têm a mesma base nutritiva; o ágar é sólido e serve à disco-difusão, e o caldo é líquido e serve aos métodos de diluição que determinam a CIM. Na microdiluição de referência, o caldo precisa ser ajustado em cálcio e magnésio.

Por que o ágar Mueller Hinton deve ter 4 mm de profundidade?

Porque a espessura muda a difusão do antimicrobiano. Ágar mais espesso pode dar resultado falso-resistente e ágar mais fino, falso-sensível; o EUCAST aceita 4,0 ± 0,5 mm.

Qual o pH do ágar Mueller Hinton?

A ficha da Sora especifica 7,3 ± 0,1 a 25 °C. Fora dessa faixa, aminoglicosídeos e macrolídeos mudam de potência aparente e o resultado do antibiograma fica comprometido.

Posso usar Mueller Hinton com sangue no antibiograma?

Sim, para microrganismos exigentes, desde que siga o meio do seu sistema: MH-F (sangue de cavalo com β-NAD) no EUCAST/BrCAST, ou Mueller Hinton com 5% de sangue de carneiro no CLSI. O sangue altera alguns halos, como os de oxacilina e de sulfametoxazol-trimetoprima.

Referências bibliográficas e normas técnicas

  • Clinical and Laboratory Standards Institute (CLSI). M02 — Performance Standards for Antimicrobial Disk Susceptibility Tests. 14. ed. Wayne, PA: CLSI, 2024.
  • Clinical and Laboratory Standards Institute (CLSI). M07 — Methods for Dilution Antimicrobial Susceptibility Tests for Bacteria That Grow Aerobically. 12. ed. Wayne, PA: CLSI, 2024.
  • Clinical and Laboratory Standards Institute (CLSI). M100 — Performance Standards for Antimicrobial Susceptibility Testing. 36. ed. Wayne, PA: CLSI, 2026.
  • ISO 20776-1:2019. Susceptibility testing of infectious agents and evaluation of performance of antimicrobial susceptibility test devices — Part 1: Broth micro-dilution reference method for testing the in vitro activity of antimicrobial agents against rapidly growing aerobic bacteria involved in infectious diseases. Genebra: International Organization for Standardization, 2019.
  • ISO/TS 16782:2016. Clinical laboratory testing — Criteria for acceptable lots of dehydrated Mueller-Hinton agar and broth for antimicrobial susceptibility testing. Genebra: International Organization for Standardization, 2016.
  • EUCAST. EUCAST disk diffusion method manual. Versão 13.0, janeiro de 2025. Disponível em https://www.eucast.org/.
  • EUCAST. Media preparation for EUCAST disk diffusion testing and for determination of MIC values by the broth microdilution method. Versão 8.0, janeiro de 2026. Disponível em https://www.eucast.org/.
  • EUCAST. Routine and extended internal quality control for MIC determination and disk diffusion as recommended by EUCAST. Versão 16.0, válida a partir de 1º de janeiro de 2026.
  • EUCAST. Alternative media for fastidious organisms in EUCAST disk diffusion testing. Setembro de 2025.
  • BrCAST — Comitê Brasileiro de Testes de Sensibilidade aos Antimicrobianos. Método de Disco-Difusão BrCAST (28/03/2025); Tabela CQ de Rotina e Estendido BrCAST (28/03/2025); Tabela pontos de corte clínicos BrCAST (15/04/2026). Disponíveis em https://brcast.org.br/.
  • Mueller JH, Hinton J. A protein-free medium for primary isolation of the gonococcus and meningococcus. Proceedings of the Society for Experimental Biology and Medicine, v. 48, p. 330–333, 1941.
  • Bauer AW, Kirby WMM, Sherris JC, Turck M. Antibiotic susceptibility testing by a standardized single disk method. American Journal of Clinical Pathology, v. 45, n. 4, p. 493–496, 1966.
  • Barry AL, Reller LB, Miller GH et al. Revision of standards for adjusting the cation content of Mueller-Hinton broth for testing susceptibility of Pseudomonas aeruginosa to aminoglycosides. Journal of Clinical Microbiology, v. 30, n. 3, p. 585–589, 1992.
  • Sora Scientific. Fichas técnicas FT-SM-01123 (Ágar Mueller Hinton), FT-SM-01222 (Caldo Mueller Hinton) e FT-SM-11924 (Ágar Base HTM para Haemophilus). Disponíveis em https://docs.sorascientific.com/.