IN 161 e RDC 724: padrões microbiológicos de alimentos e os meios de cultura para cada análise
A IN 161 (Instrução Normativa Anvisa nº 161, de 1º de julho de 2022) é a lista oficial de padrões microbiológicos de alimentos no Brasil: para cada categoria de alimento, ela diz quais microrganismos, toxinas ou metabólitos analisar e com qual plano de amostragem (n, c, m, M). A RDC 724/2022, da mesma data, define as regras de aplicação: quem cumpre, como interpretar o resultado e quais métodos analíticos são aceitos. As duas estão em vigor desde 1º de setembro de 2022.
Na prática, a IN 161 diz o que procurar e a RDC 724 diz como decidir. O método de bancada, e com ele o meio de cultura, vem das referências que a RDC 724 lista, como as normas ISO e o Bacteriological Analytical Manual (BAM) da FDA.
O que são a RDC 724/2022 e a IN 161/2022
A RDC nº 724/2022 "dispõe sobre os padrões microbiológicos dos alimentos e sua aplicação" e revogou a RDC nº 331/2019. A IN nº 161/2022, publicada no mesmo DOU (6 de julho de 2022), estabelece as listas de padrões e revogou as INs nº 60/2019, 79/2020 e 110/2021. O conjunto substituiu o par RDC 331/IN 60, de 2019, sucessor da antiga RDC 12/2001.
A IN 161 já foi alterada. A IN nº 313, de 4 de setembro de 2024, retirou o padrão de aeróbios mesófilos das carnes de aves, bovinas, suínas e seus produtos (categorias 5 e 6), por ser um critério de higiene de processo e não de produto no mercado, e incluiu no art. 1º a regra de que alimento deteriorado tem qualidade inaceitável e não se submete aos padrões. Antes de montar um plano de análise, consulte o texto compilado no portal da Anvisa.
Quem deve cumprir os padrões microbiológicos
A RDC 724 se aplica a toda a cadeia produtiva de alimentos: produção, industrialização, armazenamento, fracionamento, transporte, distribuição, importação e comercialização. Os padrões valem para o alimento pronto para oferta ao consumidor, na forma em que chega a ele. Ingredientes exclusivamente de uso industrial, incluindo aditivos, seguem as próprias especificações.
Pelo art. 6º, a cadeia produtiva deve garantir os padrões durante todo o prazo de validade, avaliar periodicamente o processo, definir a frequência das análises dentro das Boas Práticas de Fabricação e, diante de resultado insatisfatório ou com qualidade intermediária, investigar a causa, corrigir e avaliar outros lotes afetados. Planos de amostragem alternativos são aceitos se derem proteção equivalente, comprovada por histórico de produção e por sistema de segurança de alimentos documentado e validado.
Como a IN 161 está organizada
A IN 161 tem quatro anexos:
- Anexo I: alimentos em geral, exceto os comercialmente estéreis, em 24 categorias (de frutas e derivados a águas envasadas), cada uma com categorias específicas;
- Anexo II: Listeria monocytogenes em alimentos prontos para o consumo;
- Anexo III: alimentos comercialmente estéreis, como leite UAT (UHT), para os quais o critério é a ausência de sinais de alteração;
- Anexo IV: Salmonella em categorias de carne suína crua, de caráter transitório.
Cada linha traz a categoria específica, o microrganismo com a unidade analítica (por exemplo, Salmonella/25 g) e os valores de n, c, m e M. Produto ausente da lista é enquadrado pela similaridade de natureza e processo. Aqui há exemplos; para o seu produto, vale o texto oficial.
Como ler o plano de amostragem n, c, m e M
As definições estão na RDC 724:
- n: número de unidades amostrais coletadas aleatoriamente do mesmo lote e analisadas individualmente;
- c: número de unidades amostrais toleradas com qualidade intermediária;
- m: limite que separa a qualidade aceitável da intermediária (plano de três classes) ou da inaceitável (plano de duas classes);
- M: limite que separa a qualidade intermediária da inaceitável.
Plano de duas classes
Usado para patógenos pesquisados por presença/ausência. Para Salmonella/25 g com n = 5, c = 0 e m = ausência, o lote só é satisfatório se as cinco unidades derem ausência. Uma unidade com presença torna o resultado insatisfatório com qualidade inaceitável.
Plano de três classes
Usado para contagens. Para queijos, a IN 161 fixa para estafilococos coagulase positiva/g n = 5, c = 2, m = 10² e M = 10³ UFC/g. Suponha estes resultados nas cinco unidades: < 10, 50, 80, 3 × 10² e 6 × 10² UFC/g.
- Duas unidades ficaram entre m e M (igual a c) e nenhuma passou de M: satisfatório com qualidade intermediária.
- Com uma terceira unidade entre m e M, ou qualquer uma acima de 10³ UFC/g: insatisfatório com qualidade inaceitável.
- Com as cinco unidades ≤ 10²: satisfatório com qualidade aceitável.
Os resultados são expressos em UFC/g ou UFC/mL (contagem em placa) ou em NMP/g ou NMP/mL (tubos múltiplos). "Qualidade intermediária" ainda obriga a investigar a causa.
Microrganismos da IN 161: método de referência e meios de cultura
O art. 9º da RDC 724 manda seguir, nas últimas edições, pelo menos uma destas referências: Codex Alimentarius, ISO, Compendium da APHA, Standard Methods for the Examination of Dairy Products, Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater, BAM/FDA, AOAC, Farmacopeia Brasileira ou USP. A tabela usa as normas ISO mais adotadas para cada parâmetro e aponta os meios do catálogo da Sora.
| Parâmetro na IN 161 | Método de referência usual | Meios de cultura da Sora |
|---|---|---|
| Salmonella/25 g | ISO 6579-1:2017 | Água Peptonada Tamponada, Caldo RVS, Caldo MKTTn, Ágar XLD |
| Escherichia coli/g (NMP) | ISO 7251:2005; BAM, cap. 4 | Caldo Lauril Sulfato Triptose (LST), Caldo EC (ISO 7251), Caldo EC com MUG, Ágar EMB Levine |
| Enterobacteriaceae/g | ISO 21528-2:2017 (contagem); ISO 21528-1:2017 (detecção) | Ágar VRBG, Caldo EE Mossel |
| Estafilococos coagulase positiva/g | ISO 6888-1:2021 | Ágar Base Baird-Parker com Emulsão de Gema de Ovo com Telurito; Caldo BHI para a prova da coagulase |
| Bacillus cereus presuntivo/g | ISO 7932:2004/Amd 1:2020 | Ágar Base Bacillus cereus MYP com Polimixina B e Emulsão de Gema de Ovo |
| Listeria monocytogenes/g ou /25 g | ISO 11290-1:2017 (detecção); ISO 11290-2:2017 (contagem) | Caldo Base Fraser com Suplemento Fraser; Ágar Base Oxford e Ágar Base PALCAM com seus suplementos |
| Bolores e leveduras/g ou /mL | ISO 21527-1:2008 (aw > 0,95); ISO 21527-2:2008 (aw ≤ 0,95) | Ágar Base DRBC com Suplemento de Cloranfenicol; Ágar Base DG18 |
| Clostridium perfringens/g | ISO 7937:2004 | Ágar Base TSC com Suplemento TSC |
| Aeróbios mesófilos/g | ISO 4833-1:2013 | Ágar Padrão para Contagem (PCA) |
Salmonella
É o parâmetro mais frequente da IN 161, em plano de duas classes, com n de 5 a 60 conforme o risco: fórmulas infantis para lactentes pedem n = 60. A ISO 6579-1 combina pré-enriquecimento, dois caldos seletivos em paralelo (RVS e MKTTn) e plaqueamento em XLD e num segundo meio à escolha do laboratório, como o Ágar Hektoen Entérico ou o Ágar Sulfito de Bismuto, também usados no BAM, capítulo 5. Para a confirmação bioquímica: Ágar TSI, Ágar Base Ureia de Christensen (ISO 6579-1), Caldo Lisina Descarboxilase e Ágar Lisina Ferro. Veja todos os meios para Salmonella.
E. coli e Enterobacteriaceae
E. coli é o indicador de contaminação fecal mais citado na IN 161. A contagem direta da ISO 16649-2 usa ágar cromogênico TBX, que não está no catálogo; pela técnica do NMP (ISO 7251 e BAM), a sequência é LST, caldo EC a 44 °C e confirmação. Para Enterobacteriaceae, indicador de higiene em leite pasteurizado, ovos, sucos e alimentos infantis, o VRBG é o meio de contagem. Veja os meios para E. coli e coliformes e para enterobactérias.
Estafilococos, enterotoxinas e Bacillus cereus
A IN 161 pede estafilococos coagulase positiva, e não só Staphylococcus aureus; por isso a contagem em Baird-Parker termina com a prova da coagulase. Em queijos, outros lácteos e alguns pratos prontos, ela pede também enterotoxinas estafilocócicas, pesquisadas por método imunoenzimático (como a ISO 19020:2017), e não por meio de cultura; nas categorias 9, 15 e 22, o limite de detecção deve ser ≤ 1 ng/g. Para B. cereus, a contagem presuntiva em MYP a 30 °C segue a ISO 7932, com confirmação da hemólise em ágar sangue de carneiro, que pode ser preparado com o Ágar Base Sangue Columbia. Veja os meios para Staphylococcus e para Bacillus.
Listeria monocytogenes
O Anexo II fixa n = 5, c = 0, m = 10²/g para alimentos prontos para o consumo e ausência em 25 g (n = 10) para os destinados a lactentes ou a fins especiais. Ficam dispensados da pesquisa regular, entre outros, os alimentos com validade menor que 5 dias, pH ≤ 4,4, aw ≤ 0,92, ou pH ≤ 5,0 combinado com aw ≤ 0,94. A ISO 11290-1 enriquece em meio Fraser e semeia em ágar cromogênico do tipo ALOA, que não está no catálogo da Sora, e num segundo meio seletivo, papel que o Oxford e o PALCAM podem cumprir. Veja os meios para Listeria.
Bolores e leveduras, clostrídios e aeróbios mesófilos
Bolores e leveduras aparecem em polpas, doces, sucos, margarinas e açúcares; a escolha entre DRBC e DG18 depende da atividade de água, como detalha o guia sobre ágar Sabouraud, DRBC e DG18. Em alimentos, a IN 161 pede Clostridium perfringens em produtos cárneos cozidos e preparações com carne, contado em TSC sob anaerobiose. Esporos de clostrídios sulfito-redutores só aparecem na categoria 24 (águas envasadas), em 50 mL; havendo presença, pesquisam-se esporos de C. perfringens. Veja os meios para Clostridium. Os aeróbios mesófilos seguem em categorias como leite em pó e alimentos infantis.
Outros parâmetros
Cronobacter spp., exigido em fórmulas infantis, segue a ISO 22964:2017, que usa a Água Peptonada Tamponada no pré-enriquecimento. Nas águas envasadas (coliformes totais, E. coli, enterococos e Pseudomonas aeruginosa em 250 mL), valem os métodos de água, como a ISO 7899-2 para enterococos, atendida pelo Ágar Slanetz-Bartley. Veja a seleção para água e efluentes.
Métodos alternativos e controle de qualidade dos meios
A RDC 724 aceita métodos alternativos (kits, meios cromogênicos, métodos rápidos) validados como equivalentes aos de referência ou certificados por organismo independente segundo a ISO 16140 ou protocolo similar.
O meio de cultura também entra na rastreabilidade do resultado. A ISO 11133 define os ensaios de desempenho (produtividade, seletividade, especificidade) dos meios que o laboratório prepara. A Sora emite certificado de análise por lote, mas o lote que você reidrata continua sendo liberado por você: veja o guia de teste de promoção de crescimento, os erros de preparo de meio de cultura desidratado e os critérios para avaliar ficha técnica e rastreabilidade do fornecedor.
Monte o seu plano de análise
Comece pela categoria do seu produto na IN 161 compilada, liste os parâmetros e o plano n, c, m, M, escolha o método de referência de cada um e só então defina os meios. A seleção completa está em meios para alimentos e laticínios, com composição, preparo e controle microbiológico publicados na ficha técnica de cada produto. Para montar a lista de meios do seu plano ou tirar dúvidas de método, fale com a equipe técnica da Sora.
Perguntas frequentes
O que é a IN 161 da Anvisa?
É a Instrução Normativa nº 161, de 1º de julho de 2022, que estabelece as listas de padrões microbiológicos de alimentos no Brasil. Para cada categoria de alimento, ela define os microrganismos, toxinas ou metabólitos a analisar e o plano de amostragem (n, c, m, M).
Qual a diferença entre a RDC 724 e a IN 161?
A RDC 724/2022 traz as regras: a quem se aplicam os padrões, as definições, a interpretação dos resultados e os métodos aceitos. A IN 161/2022 traz as tabelas com os padrões de cada categoria de alimento.
A IN 161 ainda está em vigor?
Sim, desde 1º de setembro de 2022, com alterações posteriores, como a IN nº 313/2024, que retirou os aeróbios mesófilos das carnes e seus produtos. Consulte sempre o texto compilado no portal da Anvisa.
O que significam n, c, m e M?
n é o número de unidades amostrais do lote analisadas; c é quantas podem ter resultado entre m e M (qualidade intermediária). m separa a qualidade aceitável da intermediária (ou da inaceitável, no plano de duas classes), e M separa a intermediária da inaceitável.
Quais métodos de análise a RDC 724 aceita?
Os das referências listadas no art. 9º, nas últimas edições, como ISO, BAM/FDA, Compendium da APHA, AOAC, Codex, Farmacopeia Brasileira e USP. Métodos alternativos valem se validados como equivalentes ou certificados segundo a ISO 16140 ou protocolo similar.
Referências bibliográficas e normas técnicas
- Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução de Diretoria Colegiada RDC nº 724, de 1º de julho de 2022. Dispõe sobre os padrões microbiológicos dos alimentos e sua aplicação. Diário Oficial da União, nº 126, Seção 1, p. 205, 6 jul. 2022.
- Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Instrução Normativa IN nº 161, de 1º de julho de 2022. Estabelece os padrões microbiológicos dos alimentos. Diário Oficial da União, nº 126, Seção 1, p. 235, 6 jul. 2022.
- Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Instrução Normativa IN nº 313, de 4 de setembro de 2024. Altera a Instrução Normativa nº 161, de 1º de julho de 2022.
- Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Voto nº 190/2024/SEI/DIRE2/ANVISA. Processo nº 25351.940401/2023-40. Brasília, 4 set. 2024.
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- International Organization for Standardization. ISO 7251:2005 Microbiology of food and animal feeding stuffs — Horizontal method for the detection and enumeration of presumptive Escherichia coli — Most probable number technique.
- International Organization for Standardization. ISO 16649-2:2001 Microbiology of food and animal feeding stuffs — Horizontal method for the enumeration of beta-glucuronidase-positive Escherichia coli — Part 2: Colony-count technique at 44 °C using 5-bromo-4-chloro-3-indolyl beta-D-glucuronide.
- International Organization for Standardization. ISO 21528-1:2017 e ISO 21528-2:2017 Microbiology of the food chain — Horizontal method for the detection and enumeration of Enterobacteriaceae — Part 1: Detection of Enterobacteriaceae; Part 2: Colony-count technique.
- International Organization for Standardization. ISO 6888-1:2021 Microbiology of the food chain — Horizontal method for the enumeration of coagulase-positive staphylococci (Staphylococcus aureus and other species) — Part 1: Method using Baird-Parker agar medium.
- International Organization for Standardization. ISO 19020:2017 Microbiology of the food chain — Horizontal method for the immunoenzymatic detection of staphylococcal enterotoxins in foodstuffs.
- International Organization for Standardization. ISO 7932:2004 Microbiology of food and animal feeding stuffs — Horizontal method for the enumeration of presumptive Bacillus cereus — Colony-count technique at 30 °C (com Amd 1:2020).
- International Organization for Standardization. ISO 11290-1:2017 e ISO 11290-2:2017 Microbiology of the food chain — Horizontal method for the detection and enumeration of Listeria monocytogenes and of Listeria spp. — Part 1: Detection method; Part 2: Enumeration method.
- International Organization for Standardization. ISO 21527-1:2008 e ISO 21527-2:2008 Microbiology of food and animal feeding stuffs — Horizontal method for the enumeration of yeasts and moulds.
- International Organization for Standardization. ISO 7937:2004 Microbiology of food and animal feeding stuffs — Horizontal method for the enumeration of Clostridium perfringens — Colony-count technique.
- International Organization for Standardization. ISO 4833-1:2013 Microbiology of the food chain — Horizontal method for the enumeration of microorganisms — Part 1: Colony count at 30 °C by the pour plate technique.
- International Organization for Standardization. ISO 22964:2017 Microbiology of the food chain — Horizontal method for the detection of Cronobacter spp.
- International Organization for Standardization. ISO 7899-2:2000 Water quality — Detection and enumeration of intestinal enterococci — Part 2: Membrane filtration method.
- International Organization for Standardization. ISO 16140 (série) Microbiology of the food chain — Method validation.
- International Organization for Standardization. ISO 11133:2014 Microbiology of food, animal feed and water — Preparation, production, storage and performance testing of culture media (com Amd 1:2018 e Amd 2:2020).
- U.S. Food and Drug Administration. Bacteriological Analytical Manual (BAM), capítulos 4 (Escherichia coli e coliformes) e 5 (Salmonella). Edições vigentes.
- Sora Scientific. Fichas técnicas dos produtos citados (FT-SM-14720, FT-SM-04721, FT-SM-02923, FT-SM-00828, FT-SM-13029, FT-SM-09324, FT-SM-11726, FT-SM-06122, FT-SM-08128, FT-SS-01123, FT-SM-13425, FT-SM-05520, FT-SM-02220, FT-SM-16329, FT-SM-12823, FT-SM-13326, FT-SM-09720, FT-SM-03723, entre outras). Disponíveis em https://docs.sorascientific.com/.
