Ágar batata dextrose (BDA): para que serve, composição e como preparar
O ágar batata dextrose (BDA) é um meio de cultura nutritivo e não seletivo usado para cultivar fungos filamentosos e leveduras: isolamento, repique, purificação, manutenção de culturas e preparo de cepas de referência. A infusão de batata e a dextrose sustentam crescimento fúngico abundante, e o pH levemente ácido, de 5,6 ± 0,2 no Ágar Batata Dextrose da Sora, favorece os fungos sem impedir as bactérias. Quando é preciso suprimir bactérias, o meio é acidificado com ácido tartárico até pH 3,5: é o chamado BDA acidificado.
Em inglês, o meio é o potato dextrose agar (PDA). Este guia cobre a composição, o preparo do meio desidratado, a acidificação, a versão em caldo, a diferença entre o BDA "caseiro" e o desidratado e os erros que mais comprometem o resultado.
Para que serve o meio de cultura BDA
O BDA serve para fazer fungos crescerem bem, não para escolher quais crescem. Isso define os usos em que ele é a melhor escolha.
Isolamento, repique e identificação de fungos
O papel mais comum do BDA é o de meio de trabalho: purificar uma colônia, repicar um isolado e cultivá-lo até que a morfologia permita a identificação. O FDA Bacteriological Analytical Manual (BAM), no capítulo 18, indica isolar as colônias em BDA ou em ágar malte quando é preciso identificar a espécie. A ficha da Sora registra a limitação que vale para qualquer BDA: o meio não é diferencial, e a identificação até gênero e espécie exige exame microscópico e testes complementares.
Preparo de cepas de referência e esporulação
No ensaio de enumeração microbiana harmonizado (USP <61> e Ph. Eur. 2.6.12), Aspergillus brasiliensis ATCC 16404 é preparado em ágar Sabouraud dextrose ou em ágar batata dextrose, a 20–25 °C por 5 a 7 dias ou até que se obtenha boa esporulação. É dessa cultura que sai a suspensão de esporos para a promoção de crescimento, assunto do guia sobre o teste de promoção de crescimento em meios de cultura.
O controle microbiológico declarado na ficha do BDA da Sora reforça esse uso: crescimento abundante de A. brasiliensis ATCC 16404, Candida albicans ATCC 10231 e Saccharomyces cerevisiae ATCC 9763 após 2 a 4 dias a 22–25 °C, com formação de ascósporos positiva para S. cerevisiae.
Fitopatologia e agricultura
Em fitopatologia, o BDA é um dos meios de uso geral mais empregados para isolar fungos de tecidos vegetais, sementes e solo e para manter coleções de isolados, como descrevem os manuais de métodos da área (ex.: Alfenas e Mafia, Métodos em Fitopatologia). Para essa rotina, veja a seleção de meios para agricultura.
Alimentos, água e laticínios
A ficha da Sora declara o uso do BDA no isolamento e na contagem de leveduras e bolores de água, laticínios e outros alimentos. Atenção ao método: as contagens normativas de alimentos (ISO 21527-1 e ISO 21527-2) usam DRBC e DG18, e não BDA. A comparação completa está no guia ágar Sabouraud, Sabouraud com cloranfenicol ou batata dextrose.
Composição do ágar batata dextrose
A fórmula do BDA tem só três componentes. Os valores abaixo são os da ficha técnica do Ágar Batata Dextrose da Sora, por litro:
| Componente | Quantidade | Função |
|---|---|---|
| Infusão de batata | a partir de 200 g | Nutrientes solúveis da batata, base do crescimento fúngico |
| Dextrose | 20,00 g | Fonte de carbono e energia de fácil assimilação |
| Ágar | 15,00 g | Agente solidificante |
Dados de preparo e controle da mesma ficha:
- Reconstituição: 39 g/L, com rendimento de cerca de 12,8 L por frasco de 500 g.
- pH final (25 °C): 5,6 ± 0,2.
- Pó: creme a amarelo-claro, homogêneo e de escoamento livre.
- Meio preparado: âmbar-claro, límpido a levemente opalescente.
Como preparar o meio de cultura BDA desidratado
O preparo segue a ficha técnica:
- Suspenda 39,0 g do pó em 1.000 mL de água purificada ou destilada.
- Aqueça até a ebulição para dissolver completamente.
- Esterilize em autoclave a 121 °C por 15 minutos.
- Resfrie a 45–50 °C e homogeneíze antes de distribuir em placas, tubos ou frascos.
O pó tende a formar grumos moles, que se desfazem com facilidade e voltam à forma de pó. Conserve o meio desidratado abaixo de 30 °C e o meio preparado entre 2 e 8 °C. Os cuidados gerais de pesagem, dissolução e autoclavagem estão em como preparar meio de cultura desidratado.
A Sora emite certificado de análise por lote, depois do envase. O meio que você reidrata no seu laboratório, porém, é um lote novo: a liberação dele, com pH, aspecto e promoção de crescimento, cabe ao seu controle de qualidade.
BDA acidificado com ácido tartárico (pH 3,5)
O BDA acidificado é o BDA levado a pH 3,5 para inibir o crescimento bacteriano. Pela ficha, use solução estéril de ácido tartárico a 10%, na proporção aproximada de 1 mL para 100 mL de meio já estéril e resfriado, e não aqueça o meio depois da adição: o calor em pH tão baixo hidrolisa o ágar, e o meio pode não solidificar mais.
Na prática:
- acidifique só o volume que vai verter logo, com o meio a 45–50 °C;
- homogeneíze sem formar espuma e distribua em seguida;
- como a quantidade é aproximada, confira o pH em uma alíquota separada do mesmo lote, sem devolvê-la ao frasco.
Caldo batata dextrose: a versão líquida
Para cultivo em meio líquido, como a produção de biomassa ou de inóculo, existe o Caldo Batata Dextrose. A ficha declara a mesma base (infusão a partir de 200 g de batata e dextrose 20 g/L), sem ágar, com reconstituição de 24 g/L, pH final de 5,1 ± 0,2 e autoclavagem a 121 °C por 15 minutos. A acidificação a pH 3,5 segue a mesma regra do ágar. O controle microbiológico declarado é crescimento abundante de A. brasiliensis, C. albicans e S. cerevisiae a 25–30 °C por 4 a 5 dias.
BDA ou Sabouraud?
A diferença está no objetivo. O Ágar Sabouraud Dextrose tem peptona e o dobro de dextrose (40 g/L) e é o meio da contagem de bolores e leveduras (TYMC) em produtos farmacêuticos e cosméticos pela USP <61>. O BDA é o meio de isolamento, repique e esporulação. Os critérios de escolha, inclusive o Sabouraud com cloranfenicol, DRBC e DG18, estão no guia comparativo citado acima.
Como fazer meio de cultura BDA: caseiro ou desidratado
O BDA "caseiro" é feito cozinhando batatas descascadas em água, filtrando o caldo, completando o volume e acrescentando dextrose e ágar antes da autoclavagem. Funciona, e é comum em aulas práticas e em laboratórios de fitopatologia, mas a infusão muda de um preparo para outro:
- a batata varia: cultivar, maturação e armazenamento alteram o teor de amido, açúcares e outros nutrientes;
- a receita varia: a fórmula clássica parte de 200 g de batata por litro, mas há protocolos com outras quantidades;
- o processo varia: tempo de cozimento, filtração e evaporação mudam a concentração final, a turbidez e o pH;
- não há controle por lote: sem pH especificado nem cepas de controle, uma falha de crescimento fica sem explicação.
O meio desidratado resolve esses pontos com fórmula fixa, pH especificado, controle microbiológico com cepas ATCC e certificado por lote, além de reduzir o preparo a pesar, dissolver e autoclavar. Para métodos com rastreabilidade (farmacopeia, ISO, POP validado), essa padronização é o que permite comparar resultados entre lotes e entre laboratórios.
Erros comuns com o BDA
- Aquecer o meio depois de acidificar. É a causa clássica de BDA que não solidifica. A ficha registra a limitação: o aquecimento após a acidificação hidrolisa o ágar.
- Acidificar antes da autoclavagem. O ácido tartárico entra no meio já estéril e resfriado, nunca no pó nem no meio que ainda vai à autoclave.
- Esperar seletividade do BDA comum. A pH 5,6, bactérias podem crescer. Se a amostra traz carga bacteriana, use o BDA acidificado ou um meio seletivo.
- Usar BDA onde o método pede outro meio. Em contagens normativas, siga o meio do método (Sabouraud na USP <61>, DRBC ou DG18 na ISO 21527).
- Identificar o fungo só pela colônia. O BDA não é diferencial; confirme com microscopia e testes complementares.
- Guardar mal o pó. A ficha pede conservação abaixo de 30 °C; mantenha o frasco bem fechado, porque o pó exposto à umidade empedra e perde desempenho.
Meios para fungos no catálogo da Sora
O Ágar Batata Dextrose e o Caldo Batata Dextrose têm composição, preparo e controle microbiológico publicados na ficha técnica. Veja todos os meios para fungos e leveduras e a seleção para alimentos. Para definir o meio do seu método, fale com a equipe técnica da Sora.
Perguntas frequentes
Para que serve o meio de cultura BDA?
O BDA serve para cultivar fungos filamentosos e leveduras: isolamento, repique, purificação, manutenção de culturas e preparo de cepas de referência, como A. brasiliensis na USP <61>. É um meio nutritivo, não seletivo nem diferencial.
Qual é a composição do ágar batata dextrose?
Infusão de batata (a partir de 200 g), dextrose 20 g/L e ágar 15 g/L. No meio da Sora, a reconstituição é de 39 g/L e o pH final, de 5,6 ± 0,2.
Como fazer BDA acidificado?
Depois de autoclavar e resfriar o meio a 45–50 °C, adicione solução estéril de ácido tartárico a 10%, cerca de 1 mL por 100 mL, para chegar a pH 3,5. Não aqueça o meio depois, porque o ágar se hidrolisa e pode não solidificar.
Qual a diferença entre BDA e ágar Sabouraud?
O Sabouraud tem peptona e 40 g/L de dextrose e é o meio de contagem de bolores e leveduras da USP <61>. O BDA tem infusão de batata e 20 g/L de dextrose e é usado sobretudo para isolar, repicar e esporular fungos.
Dá para fazer meio BDA com batata no laboratório?
Dá: cozinha-se a batata, filtra-se o caldo e acrescentam-se dextrose e ágar. A infusão, porém, varia com a batata e com o preparo, então o meio desidratado é a opção quando o método exige resultados comparáveis entre lotes.
Referências bibliográficas e normas técnicas
- United States Pharmacopeia. General Chapter <61> Microbiological Examination of Nonsterile Products: Microbial Enumeration Tests. USP–NF, edição vigente. Texto harmonizado disponível em https://www.usp.org/sites/default/files/usp/document/harmonization/gen-method/20240426HSm98800.pdf.
- European Pharmacopoeia. 2.6.12 Microbiological examination of non-sterile products: microbial enumeration tests. Estrasburgo: EDQM, edição vigente.
- Tournas, V.; Stack, M. E.; Mislivec, P. B.; Koch, H. A.; Bandler, R. Bacteriological Analytical Manual, Chapter 18: Yeasts, Molds and Mycotoxins. U.S. Food and Drug Administration, edição de abril de 2001.
- International Organization for Standardization. ISO 21527-1:2008 e ISO 21527-2:2008 Microbiology of food and animal feeding stuffs — Horizontal method for the enumeration of yeasts and moulds. Genebra: ISO, 2008.
- Alfenas, A. C.; Mafia, R. G. (ed.). Métodos em Fitopatologia. 2. ed. Viçosa: Editora UFV, 2016.
- Sora Scientific. Fichas técnicas FT-SM-00927 (Ágar Batata Dextrose), FT-SM-05629 (Caldo Batata Dextrose) e FT-SM-06429 (Ágar Sabouraud Dextrose). Disponíveis em https://docs.sorascientific.com/.
