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Artigo técnico

Ágar batata dextrose (BDA): para que serve, composição e como preparar

Equipe técnica Sora Scientific · · 8 min de leitura

Três placas de Petri tampadas com ágar batata dextrose (BDA) âmbar-claro e culturas jovens de fungos: bolor branco cotonoso, bolor de esporulação verde e colônias cremosas de levedura

O ágar batata dextrose (BDA) é um meio de cultura nutritivo e não seletivo usado para cultivar fungos filamentosos e leveduras: isolamento, repique, purificação, manutenção de culturas e preparo de cepas de referência. A infusão de batata e a dextrose sustentam crescimento fúngico abundante, e o pH levemente ácido, de 5,6 ± 0,2 no Ágar Batata Dextrose da Sora, favorece os fungos sem impedir as bactérias. Quando é preciso suprimir bactérias, o meio é acidificado com ácido tartárico até pH 3,5: é o chamado BDA acidificado.

Em inglês, o meio é o potato dextrose agar (PDA). Este guia cobre a composição, o preparo do meio desidratado, a acidificação, a versão em caldo, a diferença entre o BDA "caseiro" e o desidratado e os erros que mais comprometem o resultado.

Para que serve o meio de cultura BDA

O BDA serve para fazer fungos crescerem bem, não para escolher quais crescem. Isso define os usos em que ele é a melhor escolha.

Isolamento, repique e identificação de fungos

O papel mais comum do BDA é o de meio de trabalho: purificar uma colônia, repicar um isolado e cultivá-lo até que a morfologia permita a identificação. O FDA Bacteriological Analytical Manual (BAM), no capítulo 18, indica isolar as colônias em BDA ou em ágar malte quando é preciso identificar a espécie. A ficha da Sora registra a limitação que vale para qualquer BDA: o meio não é diferencial, e a identificação até gênero e espécie exige exame microscópico e testes complementares.

Preparo de cepas de referência e esporulação

No ensaio de enumeração microbiana harmonizado (USP <61> e Ph. Eur. 2.6.12), Aspergillus brasiliensis ATCC 16404 é preparado em ágar Sabouraud dextrose ou em ágar batata dextrose, a 20–25 °C por 5 a 7 dias ou até que se obtenha boa esporulação. É dessa cultura que sai a suspensão de esporos para a promoção de crescimento, assunto do guia sobre o teste de promoção de crescimento em meios de cultura.

O controle microbiológico declarado na ficha do BDA da Sora reforça esse uso: crescimento abundante de A. brasiliensis ATCC 16404, Candida albicans ATCC 10231 e Saccharomyces cerevisiae ATCC 9763 após 2 a 4 dias a 22–25 °C, com formação de ascósporos positiva para S. cerevisiae.

Fitopatologia e agricultura

Em fitopatologia, o BDA é um dos meios de uso geral mais empregados para isolar fungos de tecidos vegetais, sementes e solo e para manter coleções de isolados, como descrevem os manuais de métodos da área (ex.: Alfenas e Mafia, Métodos em Fitopatologia). Para essa rotina, veja a seleção de meios para agricultura.

Alimentos, água e laticínios

A ficha da Sora declara o uso do BDA no isolamento e na contagem de leveduras e bolores de água, laticínios e outros alimentos. Atenção ao método: as contagens normativas de alimentos (ISO 21527-1 e ISO 21527-2) usam DRBC e DG18, e não BDA. A comparação completa está no guia ágar Sabouraud, Sabouraud com cloranfenicol ou batata dextrose.

Placa de ágar batata dextrose com colônia jovem de bolor filamentoso branco, de borda regular, isolada no centro da placa para repique e purificação

Composição do ágar batata dextrose

A fórmula do BDA tem só três componentes. Os valores abaixo são os da ficha técnica do Ágar Batata Dextrose da Sora, por litro:

ComponenteQuantidadeFunção
Infusão de batataa partir de 200 gNutrientes solúveis da batata, base do crescimento fúngico
Dextrose20,00 gFonte de carbono e energia de fácil assimilação
Ágar15,00 gAgente solidificante

Dados de preparo e controle da mesma ficha:

  • Reconstituição: 39 g/L, com rendimento de cerca de 12,8 L por frasco de 500 g.
  • pH final (25 °C): 5,6 ± 0,2.
  • Pó: creme a amarelo-claro, homogêneo e de escoamento livre.
  • Meio preparado: âmbar-claro, límpido a levemente opalescente.

Como preparar o meio de cultura BDA desidratado

O preparo segue a ficha técnica:

  1. Suspenda 39,0 g do pó em 1.000 mL de água purificada ou destilada.
  2. Aqueça até a ebulição para dissolver completamente.
  3. Esterilize em autoclave a 121 °C por 15 minutos.
  4. Resfrie a 45–50 °C e homogeneíze antes de distribuir em placas, tubos ou frascos.

O pó tende a formar grumos moles, que se desfazem com facilidade e voltam à forma de pó. Conserve o meio desidratado abaixo de 30 °C e o meio preparado entre 2 e 8 °C. Os cuidados gerais de pesagem, dissolução e autoclavagem estão em como preparar meio de cultura desidratado.

A Sora emite certificado de análise por lote, depois do envase. O meio que você reidrata no seu laboratório, porém, é um lote novo: a liberação dele, com pH, aspecto e promoção de crescimento, cabe ao seu controle de qualidade.

BDA acidificado com ácido tartárico (pH 3,5)

O BDA acidificado é o BDA levado a pH 3,5 para inibir o crescimento bacteriano. Pela ficha, use solução estéril de ácido tartárico a 10%, na proporção aproximada de 1 mL para 100 mL de meio já estéril e resfriado, e não aqueça o meio depois da adição: o calor em pH tão baixo hidrolisa o ágar, e o meio pode não solidificar mais.

Na prática:

  • acidifique só o volume que vai verter logo, com o meio a 45–50 °C;
  • homogeneíze sem formar espuma e distribua em seguida;
  • como a quantidade é aproximada, confira o pH em uma alíquota separada do mesmo lote, sem devolvê-la ao frasco.
Frasco de vidro com meio de cultura BDA âmbar-claro, já autoclavado e resfriado, ao lado de placas de Petri vazias e tampadas, prontas para receber o meio acidificado

Caldo batata dextrose: a versão líquida

Para cultivo em meio líquido, como a produção de biomassa ou de inóculo, existe o Caldo Batata Dextrose. A ficha declara a mesma base (infusão a partir de 200 g de batata e dextrose 20 g/L), sem ágar, com reconstituição de 24 g/L, pH final de 5,1 ± 0,2 e autoclavagem a 121 °C por 15 minutos. A acidificação a pH 3,5 segue a mesma regra do ágar. O controle microbiológico declarado é crescimento abundante de A. brasiliensis, C. albicans e S. cerevisiae a 25–30 °C por 4 a 5 dias.

BDA ou Sabouraud?

A diferença está no objetivo. O Ágar Sabouraud Dextrose tem peptona e o dobro de dextrose (40 g/L) e é o meio da contagem de bolores e leveduras (TYMC) em produtos farmacêuticos e cosméticos pela USP <61>. O BDA é o meio de isolamento, repique e esporulação. Os critérios de escolha, inclusive o Sabouraud com cloranfenicol, DRBC e DG18, estão no guia comparativo citado acima.

Como fazer meio de cultura BDA: caseiro ou desidratado

O BDA "caseiro" é feito cozinhando batatas descascadas em água, filtrando o caldo, completando o volume e acrescentando dextrose e ágar antes da autoclavagem. Funciona, e é comum em aulas práticas e em laboratórios de fitopatologia, mas a infusão muda de um preparo para outro:

  • a batata varia: cultivar, maturação e armazenamento alteram o teor de amido, açúcares e outros nutrientes;
  • a receita varia: a fórmula clássica parte de 200 g de batata por litro, mas há protocolos com outras quantidades;
  • o processo varia: tempo de cozimento, filtração e evaporação mudam a concentração final, a turbidez e o pH;
  • não há controle por lote: sem pH especificado nem cepas de controle, uma falha de crescimento fica sem explicação.

O meio desidratado resolve esses pontos com fórmula fixa, pH especificado, controle microbiológico com cepas ATCC e certificado por lote, além de reduzir o preparo a pesar, dissolver e autoclavar. Para métodos com rastreabilidade (farmacopeia, ISO, POP validado), essa padronização é o que permite comparar resultados entre lotes e entre laboratórios.

Erros comuns com o BDA

  1. Aquecer o meio depois de acidificar. É a causa clássica de BDA que não solidifica. A ficha registra a limitação: o aquecimento após a acidificação hidrolisa o ágar.
  2. Acidificar antes da autoclavagem. O ácido tartárico entra no meio já estéril e resfriado, nunca no pó nem no meio que ainda vai à autoclave.
  3. Esperar seletividade do BDA comum. A pH 5,6, bactérias podem crescer. Se a amostra traz carga bacteriana, use o BDA acidificado ou um meio seletivo.
  4. Usar BDA onde o método pede outro meio. Em contagens normativas, siga o meio do método (Sabouraud na USP <61>, DRBC ou DG18 na ISO 21527).
  5. Identificar o fungo só pela colônia. O BDA não é diferencial; confirme com microscopia e testes complementares.
  6. Guardar mal o pó. A ficha pede conservação abaixo de 30 °C; mantenha o frasco bem fechado, porque o pó exposto à umidade empedra e perde desempenho.

Meios para fungos no catálogo da Sora

O Ágar Batata Dextrose e o Caldo Batata Dextrose têm composição, preparo e controle microbiológico publicados na ficha técnica. Veja todos os meios para fungos e leveduras e a seleção para alimentos. Para definir o meio do seu método, fale com a equipe técnica da Sora.

Perguntas frequentes

Para que serve o meio de cultura BDA?

O BDA serve para cultivar fungos filamentosos e leveduras: isolamento, repique, purificação, manutenção de culturas e preparo de cepas de referência, como A. brasiliensis na USP <61>. É um meio nutritivo, não seletivo nem diferencial.

Qual é a composição do ágar batata dextrose?

Infusão de batata (a partir de 200 g), dextrose 20 g/L e ágar 15 g/L. No meio da Sora, a reconstituição é de 39 g/L e o pH final, de 5,6 ± 0,2.

Como fazer BDA acidificado?

Depois de autoclavar e resfriar o meio a 45–50 °C, adicione solução estéril de ácido tartárico a 10%, cerca de 1 mL por 100 mL, para chegar a pH 3,5. Não aqueça o meio depois, porque o ágar se hidrolisa e pode não solidificar.

Qual a diferença entre BDA e ágar Sabouraud?

O Sabouraud tem peptona e 40 g/L de dextrose e é o meio de contagem de bolores e leveduras da USP <61>. O BDA tem infusão de batata e 20 g/L de dextrose e é usado sobretudo para isolar, repicar e esporular fungos.

Dá para fazer meio BDA com batata no laboratório?

Dá: cozinha-se a batata, filtra-se o caldo e acrescentam-se dextrose e ágar. A infusão, porém, varia com a batata e com o preparo, então o meio desidratado é a opção quando o método exige resultados comparáveis entre lotes.

Referências bibliográficas e normas técnicas

  • United States Pharmacopeia. General Chapter <61> Microbiological Examination of Nonsterile Products: Microbial Enumeration Tests. USP–NF, edição vigente. Texto harmonizado disponível em https://www.usp.org/sites/default/files/usp/document/harmonization/gen-method/20240426HSm98800.pdf.
  • European Pharmacopoeia. 2.6.12 Microbiological examination of non-sterile products: microbial enumeration tests. Estrasburgo: EDQM, edição vigente.
  • Tournas, V.; Stack, M. E.; Mislivec, P. B.; Koch, H. A.; Bandler, R. Bacteriological Analytical Manual, Chapter 18: Yeasts, Molds and Mycotoxins. U.S. Food and Drug Administration, edição de abril de 2001.
  • International Organization for Standardization. ISO 21527-1:2008 e ISO 21527-2:2008 Microbiology of food and animal feeding stuffs — Horizontal method for the enumeration of yeasts and moulds. Genebra: ISO, 2008.
  • Alfenas, A. C.; Mafia, R. G. (ed.). Métodos em Fitopatologia. 2. ed. Viçosa: Editora UFV, 2016.
  • Sora Scientific. Fichas técnicas FT-SM-00927 (Ágar Batata Dextrose), FT-SM-05629 (Caldo Batata Dextrose) e FT-SM-06429 (Ágar Sabouraud Dextrose). Disponíveis em https://docs.sorascientific.com/.