Pular para o conteúdo
Frete grátis acima de R$ 1.000Pix, boleto ou cartão em até 6x Nota fiscal em todo pedidoFicha técnica de cada produto
Sora Scientific Meus pedidos Carrinho
Artigo técnico

Ágar CLED: para que serve, composição e leitura das colônias na urocultura

Equipe técnica Sora Scientific · · 8 min de leitura

Placas de Petri tampadas com ágar CLED verde e colônias jovens amarelas fermentadoras de lactose e colônias azuladas não fermentadoras

O ágar CLED (cistina-lactose-deficiente em eletrólitos) é um meio de cultura diferencial e essencialmente não seletivo usado no isolamento e na contagem de bactérias em amostras de urina. A ausência de eletrólitos restringe o espraiamento (swarming) de Proteus, o que deixa as colônias separadas e contáveis, e a lactose com um indicador de pH separa fermentadores (colônias amarelas) de não fermentadores (colônias azuis).

O meio surgiu nos anos 1960 para resolver o problema do Proteus nas placas de urina: Sandys descreveu o controle do espraiamento pela deficiência de eletrólitos, Mackey e Sandys levaram a formulação com cistina para a rotina de urocultura, e Bevis acrescentou o indicador de Andrade para melhorar a diferenciação das colônias.

Para que serve o ágar CLED

O CLED resolve três necessidades da urocultura numa só placa: deixa crescer os patógenos urinários comuns, gram-negativos e gram-positivos; mantém as colônias isoladas mesmo com Proteus na amostra; e dá uma primeira pista sobre o organismo pela fermentação da lactose.

A ficha técnica do Ágar CLED com Azul de Bromotimol da Sora declara uso para isolamento, contagem e identificação de patógenos urinários com base na fermentação da lactose, em amostras de urina. A do Ágar CLED com Indicador de Andrade declara crescimento e isolamento de patógenos urinários, com boa diferenciação das colônias. Os dois são produtos para uso laboratorial profissional, oferecidos na linha clínica para pesquisa e ensino.

O ágar CLED é um meio seletivo?

Não no sentido clássico. O CLED não tem agente inibidor, como sais biliares, cristal violeta ou antibiótico. A ficha da versão com indicador de Andrade registra que o meio é essencialmente não seletivo, mas que, pela exclusão de eletrólitos, o crescimento de espécies de Shigella costuma ser inibido. O efeito sobre o Proteus não é inibição: a colônia cresce, só não se espalha pela placa.

Composição do ágar CLED e função de cada componente

As duas versões da Sora têm a mesma base nutritiva e diferem no sistema indicador.

Componente (g/L)CLED com azul de bromotimol (SM-15826)CLED com indicador de Andrade (SM-04820)
Peptona (digesto péptico de tecido animal)4,004,00
Triptona (hidrolisado enzimático de caseína)4,004,00
Extrato de carne bovina3,003,00
Lactose10,0010,00
L-cistina0,1280,128
Azul de bromotimol0,020,02
Indicador de Andrade—0,10
Ágar15,0015,00
Reconstituição36,15 g/L36,25 g/L
pH final a 25 °C7,3 ± 0,27,5 ± 0,2
Cor do meio preparadoVerdeAzul-acinzentado

O papel de cada ingrediente, conforme as fichas:

  • Peptonas e extrato de carne: fornecem nitrogênio, vitaminas e aminoácidos.
  • L-cistina: suplemento de crescimento para coliformes dependentes de cistina.
  • Lactose: fonte de carbono fermentável e base da diferenciação.
  • Azul de bromotimol: indicador de pH. A fermentação da lactose acidifica o meio ao redor da colônia, que passa de verde a amarelo.
  • Indicador de Andrade (só no SM-04820): realça o aspecto da colônia e auxilia a diferenciação; com ele, a E. coli do controle aparece rosa, e não amarela.
  • Ausência de eletrólitos: não há cloreto de sódio nem outros sais na fórmula. É isso que restringe o espraiamento do Proteus.

Como a deficiência de eletrólitos é o princípio do meio, não acrescente sal e use água destilada, como indicam as fichas.

Preparo

As fichas indicam suspender o pó em 1.000 mL de água destilada (36,15 g no SM-15826; 36,25 g no SM-04820), aquecer até a ebulição para dissolver por completo e esterilizar a 121 °C por 15 minutos. Na versão com indicador de Andrade, a ficha manda resfriar a 45–50 °C, homogeneizar e distribuir em placas estéreis. O meio desidratado fica abaixo de 30 °C e as placas prontas, entre 2 e 8 °C. Os erros gerais de reidratação estão no guia como preparar meio de cultura desidratado.

Uso do CLED na urocultura: semeadura com alça calibrada

A urocultura quantitativa depende de um volume conhecido de urina na placa. Por isso a semeadura no CLED é feita com alça calibrada, e não com alça comum.

O fluxo geral:

  1. Homogeneize a urina, sem centrifugar.
  2. Carregue a alça calibrada mergulhando-a na vertical, logo abaixo da superfície, para não reter volume a mais.
  3. Semeie uma estria central ao longo do diâmetro da placa e espalhe em estrias perpendiculares por toda a superfície, para separar as colônias.
  4. Incube em aerobiose nas condições do POP do laboratório e conte as colônias.

O cálculo em UFC/mL vem do volume da alça:

Alça calibradaVolumeCada colônia corresponde a
1 µL0,001 mL1.000 UFC/mL
10 µL0,01 mL100 UFC/mL

Exemplo: 45 colônias numa placa semeada com alça de 1 µL equivalem a 45.000 UFC/mL (4,5 × 10⁴ UFC/mL).

Critérios de contagem

O valor de ≥ 10⁵ UFC/mL em urina de jato médio é o ponto de corte clássico de bacteriúria significativa, e é o critério que a diretriz de 2019 da Infectious Diseases Society of America (IDSA) usa para definir bacteriúria assintomática em amostra de micção espontânea. Os pontos de corte mudam com o método de coleta, o tipo de paciente e o número de espécies isoladas, e são definidos pelo protocolo de cada laboratório. A placa fornece a contagem; a interpretação clínica não é atributo do meio de cultura.

Para alinhar coleta, semeadura e laudo, o manual de microbiologia clínica da Anvisa (módulo de procedimentos laboratoriais) é a referência nacional de consulta.

Leitura das colônias no ágar CLED

A leitura é presuntiva: a cor diz se o organismo fermenta lactose, não qual é a espécie. A identificação exige provas bioquímicas, e a seleção de identificação bioquímica reúne os meios dessa etapa.

Detalhe de placa de ágar CLED com azul de bromotimol: colônias amarelas e opacas de fermentador de lactose ao lado de colônias azuis sem espraiamento

CLED com azul de bromotimol (meio verde)

  • Lactose positiva: colônias amarelas, com o meio ao redor amarelado.
  • Lactose negativa: colônias azuis ou azuladas, sem viragem do meio.

O controle microbiológico da ficha (18–24 h a 35–37 °C, inóculo de 50–100 UFC, recuperação ≥ 70%) descreve:

Microrganismo (ATCC)Cor da colônia
Escherichia coli (25922)Amarela, opaca, com centro de amarelo mais intenso
Klebsiella pneumoniae (13883)Amarela a azul-esbranquiçada
Proteus vulgaris (13315)Azul
Salmonella Typhi (6539)Azulada
Staphylococcus aureus (25923)Amarela intensa
Enterococcus faecalis (29212)Levemente amarelada ou esverdeada

CLED com indicador de Andrade (meio azul-acinzentado)

Nesta versão as cores mudam, e a leitura precisa seguir a ficha. O controle microbiológico (18–24 h a 35–37 °C) descreve E. coli ATCC 25922 rosa vivo, com halo rosa; Klebsiella aerogenes ATCC 13048 verde-acinzentada e mucoide; K. pneumoniae ATCC 13883 amarela a azul-esbranquiçada; Proteus mirabilis ATCC 25933 azul-esverdeada; S. Typhi ATCC 6539 azulada; S. aureus ATCC 25923 amarelo-dourada; E. faecalis ATCC 29212 amarelo-alaranjada ou esverdeada; e Streptococcus pyogenes ATCC 19615 verde-acinzentada.

Placa de ágar CLED com indicador de Andrade, de cor azul-acinzentada, com colônias rosa de fermentador de lactose e colônias azul-esverdeadas

Se o laboratório trocar uma versão pela outra, atualize o POP e o quadro de leitura: o "amarelo = lactose positiva" do CLED verde não vale para a versão com Andrade. Antes de pôr o lote em uso, confirme o desempenho com as cepas do seu método, como descrito no guia sobre teste de promoção de crescimento em meios de cultura.

CLED, MacConkey e ágar sangue: quando usar cada um

Os três aparecem juntos na rotina de urina porque fazem coisas diferentes.

MeioTipoO que cresceUso típico na urina
Ágar CLEDDiferencial, essencialmente não seletivoGram-negativos e gram-positivos; Proteus sem espraiarContagem e isolamento numa placa única
Ágar MacConkeySeletivo e diferencialGram-negativos; maioria dos gram-positivos inibidaIsolar gram-negativos e separar lactose positiva e negativa
Ágar sangueEnriquecido, não seletivoInclusive exigentes; mostra hemóliseOrganismos exigentes e padrão de hemólise

O Ágar MacConkey deve a seletividade ao cristal violeta e aos sais biliares, que inibem a maioria dos gram-positivos. Por isso ele não serve para recuperar gram-positivos como Staphylococcus e Enterococcus, que o CLED recupera. O ágar sangue, preparado a partir da Ágar Base Sangue, é o meio para organismos exigentes e para leitura de hemólise, mas nele o Proteus pode cobrir a placa. O preparo está no guia ágar sangue: para que serve e como preparar.

Limitações do ágar CLED

  1. Exigências nutricionais variam. As duas fichas registram que algumas cepas podem não crescer ou crescer pouco no meio.
  2. Organismos exigentes. O CLED não substitui um meio enriquecido para microrganismos fastidiosos.
  3. Shigella costuma ser inibida pela falta de eletrólitos, segundo a ficha da versão com Andrade.
  4. A cor é presuntiva. Fermentadores fracos ou tardios podem parecer lactose negativa em 18–24 h, e a cor varia entre as versões do meio.
  5. Sem seletividade, contaminação aparece. Urina mal coletada ou semeada com atraso gera crescimento misto que o meio não filtra.

Qual versão escolher

Para uma leitura simples, em duas cores, o CLED com azul de bromotimol é a opção direta. Quando o laboratório quer mais contraste entre as colônias e já trabalha com o quadro de cores correspondente, o CLED com indicador de Andrade é a alternativa.

As duas fichas técnicas, com composição, preparo e controle microbiológico, estão no catálogo, ao lado dos demais meios da linha de microbiologia clínica para pesquisa e ensino. A Sora emite certificado de análise por lote; o lote que o seu laboratório reidrata e distribui em placas continua sendo liberado pelo próprio laboratório. Para escolher o meio da sua rotina de urina ou montar o quadro de leitura do POP, fale com a equipe técnica da Sora.

Perguntas frequentes

O que significa CLED no meio de cultura?

CLED é a sigla de cystine-lactose-electrolyte-deficient: cistina, lactose e deficiente em eletrólitos. A cistina favorece coliformes dependentes dela, a lactose permite a diferenciação e a falta de eletrólitos restringe o espraiamento do Proteus.

O ágar CLED é um meio seletivo?

Não no sentido clássico: ele não tem sais biliares, corantes inibidores nem antibióticos, e deixa crescer gram-negativos e gram-positivos. A deficiência de eletrólitos impede o espraiamento do Proteus e costuma inibir Shigella, mas o meio é considerado essencialmente não seletivo e diferencial.

Qual a composição do ágar CLED?

Peptonas e extrato de carne como base nutritiva, lactose a 10 g/L, L-cistina a 0,128 g/L, azul de bromotimol como indicador e ágar, sem cloreto de sódio. A versão com indicador de Andrade acrescenta 0,10 g/L desse indicador.

Qual a cor das colônias de E. coli no ágar CLED?

No CLED com azul de bromotimol, E. coli forma colônias amarelas e opacas, por fermentar lactose. Na versão com indicador de Andrade, a ficha descreve colônias rosa vivo com halo rosa.

Como calcular UFC/mL na urocultura com alça calibrada?

Multiplique o número de colônias pelo inverso do volume semeado: com alça de 1 µL, cada colônia vale 1.000 UFC/mL; com alça de 10 µL, 100 UFC/mL. O ponto de corte para interpretar a contagem é definido pelo protocolo do laboratório.

Referências bibliográficas e normas técnicas

  • Sandys, G. H. A new method of preventing swarming of Proteus sp. with a description of a new medium suitable for use in routine laboratory practice. Journal of Medical Laboratory Technology, v. 17, p. 224–233, 1960.
  • Mackey, J. P.; Sandys, G. H. Diagnosis of urinary infections. British Medical Journal, v. 1, p. 1173, 1966.
  • Bevis, T. D. A modified electrolyte deficient culture medium. Journal of Medical Laboratory Technology, v. 25, p. 38–41, 1968.
  • Nicolle, L. E. et al. Clinical Practice Guideline for the Management of Asymptomatic Bacteriuria: 2019 Update by the Infectious Diseases Society of America. Clinical Infectious Diseases, v. 68, n. 10, p. e83–e110, 2019. DOI: 10.1093/cid/ciy1121.
  • Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Microbiologia Clínica para o Controle de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Módulo 4: Procedimentos Laboratoriais: da Requisição do Exame à Análise Microbiológica e Laudo Final. Brasília: Anvisa, 2013.
  • Sora Scientific. Fichas técnicas FT-SM-15826 (Ágar CLED com Azul de Bromotimol), FT-SM-04820 (Ágar CLED com Indicador de Andrade), FT-SM-00620 (Ágar MacConkey) e FT-SM-01321 (Ágar Base Sangue). Disponíveis em https://docs.sorascientific.com/.