Micrótomo: o que é, tipos (rotativo, manual, de deslizamento e criostato) e como escolher a navalha
O micrótomo é o instrumento que corta amostras biológicas em fatias finas e de espessura controlada, os cortes histológicos, para que possam ser coradas e observadas ao microscópio. Ele prende o bloco de tecido, avança esse bloco em passos de micrômetros e o faz passar por uma navalha fixa (ou move a navalha sobre o bloco). O tipo de micrótomo depende do meio em que a amostra está (parafina, resina, tecido congelado ou tecido fresco) e da espessura que a técnica pede.
Este guia explica as partes do equipamento, os tipos e para que serve cada um, onde a microtomia entra na histotécnica e o que considerar na escolha da navalha.
Partes do micrótomo
Os modelos variam, mas um micrótomo rotativo de bancada tem os mesmos componentes funcionais:
- Volante (manivela): a roda lateral que, a cada volta, sobe e desce o bloco diante da navalha. Em cada ciclo, o mecanismo de avanço empurra o bloco na espessura selecionada.
- Trava do volante (freio): bloqueia o volante em posição fixa. É o principal item de segurança do equipamento e deve estar acionada sempre que alguém for mexer no bloco ou na navalha.
- Volante ou botão de desbaste grosso: aproxima ou afasta o bloco rapidamente da navalha, sem cortar.
- Porta-bloco (porta-cassete): a garra que prende o bloco ou o cassete. Em geral tem ajuste de orientação, para deixar a face do bloco paralela ao fio.
- Porta-navalha: a base onde a lâmina fica presa sob uma placa de pressão. Ele aceita uma altura de lâmina específica (perfil alto, perfil baixo ou ambos, com adaptador).
- Ajuste do ângulo de folga: inclina o porta-navalha para definir o ângulo entre a face do bloco e a face inferior da navalha. A revisão de Abd El-Aziz e colaboradores (2025) cita a faixa de 3° a 8°; o valor exato vem do manual do equipamento.
- Seletor de espessura: define o avanço do bloco por corte, em micrômetros.
- Protetor de fio: a peça que cobre o gume da navalha quando ela não está cortando.
- Bandeja de resíduos: recolhe as aparas de parafina.
O ajuste do ângulo de folga, da espessura e do ritmo de corte na rotina está no guia de microtomia em parafina.
Tipos de micrótomo e para que serve cada um
Micrótomo rotativo
É o tipo mais usado em laboratórios de histologia. O movimento circular do volante é convertido em movimento vertical do bloco, que passa pela navalha fixa e gera cortes seriados que aderem uns aos outros em fita. Ele trabalha sobretudo com blocos de parafina; a revisão de 2025 descreve faixa típica de 1 a 60 µm e cortes semifinos de cerca de 0,5 µm em amostras incluídas em resina.
O micrótomo rotativo existe em três níveis de automação:
- Manual: o operador gira o volante e controla a velocidade e o ritmo do corte. É o mais comum em ensino e em laboratórios de volume moderado.
- Semiautomático: um motor assume parte do trabalho (em geral o avanço ou o desbaste), e o operador mantém o controle do corte.
- Automático (motorizado): o motor executa o ciclo de corte em velocidade constante, o que ajuda na padronização e reduz o esforço repetitivo em rotinas de alto volume.
Micrótomo manual: dois sentidos do termo
Quem busca micrótomo manual pode estar procurando duas coisas diferentes. Em histologia, o termo costuma designar o micrótomo rotativo de volante manual, descrito acima. Em botânica e em aulas práticas, designa o micrótomo de mão, um dispositivo simples em que a amostra vegetal, sem inclusão, é presa num cilindro e cortada com lâmina deslizada à mão. O Atlas de Histologia Vegetal e Animal da Universidade de Vigo registra que os cortes feitos à mão costumam ter espessura acima de 100 µm, adequada para observar estruturas vegetais em microscopia de luz.
Micrótomo de deslizamento (sliding e sledge)
No micrótomo de deslizamento, o corte é feito por um movimento horizontal: a navalha desliza sobre o bloco fixo, ou o bloco desliza sob a navalha fixa, conforme o modelo. A revisão de 2025 associa o tipo a amostras maiores e a blocos em celoidina, e indica o micrótomo sledge, mais robusto, para materiais duros. Na prática, é escolhido quando o bloco é grande demais para o porta-cassete de um rotativo ou quando a amostra exige cortes mais espessos.
Criostato e micrótomo de congelação
O criostato é um micrótomo, geralmente rotativo, instalado dentro de uma câmara refrigerada: amostra, navalha e mecanismo ficam no frio. Ele corta tecido congelado sem passar pelo processamento em parafina, o que poupa tempo e preserva melhor as moléculas do tecido. O atlas de Vigo cita cortes de 10 a 40 µm e observa que o criostato vem ganhando espaço justamente por essas duas vantagens.
O micrótomo de congelação é o antecessor mais simples: só a platina que segura a amostra é resfriada, e a navalha fica à temperatura ambiente. O mesmo atlas descreve cortes mais espessos, de 30 µm a 100 ou 200 µm.
Vibrátomo
O vibrátomo (micrótomo vibratório) corta tecido sem inclusão e sem congelamento: a lâmina vibra lateralmente enquanto avança devagar pela amostra, imersa em tampão. O atlas de Vigo indica cortes de 30–40 µm a centenas de micrômetros, em amostras fixadas e relativamente moles; o equipamento também é usado com tecido fresco, como em fatias de cérebro para neurociência.
Ultramicrótomo
O ultramicrótomo produz cortes ultrafinos de amostras incluídas em resina para microscopia eletrônica. Usa navalhas de vidro ou de diamante, não lâminas de aço. A revisão de 2025 cita cortes de 40 a 100 nm para microscopia eletrônica de transmissão; os cortes semifinos, de cerca de 0,5 µm, servem para orientação em microscopia de luz.
Resumo: tipo, amostra e uso
| Tipo | Amostra | Uso típico |
|---|---|---|
| Rotativo (manual, semi ou automático) | Bloco de parafina; resina (semifino) | Rotina de histologia, cortes seriados |
| De deslizamento / sledge | Blocos grandes, celoidina, materiais duros | Peças grandes, cortes mais espessos |
| Criostato | Tecido congelado | Cortes por congelação, histoquímica, imunofluorescência |
| Micrótomo de congelação | Tecido congelado | Cortes congelados mais espessos |
| Vibrátomo | Tecido fixado ou fresco, sem inclusão | Neurociência, fatias de tecido |
| Ultramicrótomo | Resina | Microscopia eletrônica |
Onde o micrótomo entra na histotécnica
A microtomia é a quarta etapa do fluxo clássico da histotécnica em parafina, descrito em Slaoui e Fiette (2011) e no Bancroft's:
- Fixação: estabiliza o tecido e interrompe a autólise.
- Processamento: desidratação em álcoois, diafanização e infiltração com parafina.
- Inclusão: o tecido é orientado em molde e envolvido em parafina, formando o bloco no cassete.
- Microtomia: o bloco é cortado no micrótomo, e os cortes são estendidos em banho-maria e recolhidos na lâmina de vidro.
- Coloração e montagem: hematoxilina e eosina ou técnicas especiais, seguidas de montagem com lamínula.
Boa parte dos defeitos que aparecem no micrótomo nasce antes dele: tecido mal fixado, mal processado ou mal incluído esfarela ou se solta com qualquer navalha. O guia de artefatos em cortes histológicos ajuda a separar o que é bloco, o que é navalha e o que é ajuste.
Como escolher a navalha do micrótomo
Navalha descartável ou permanente
As navalhas permanentes de aço são reafiadas periodicamente; a revisão de 2025 observa que o aço de superfície endurecida perde o fio quando a camada endurecida é removida por reafiações repetidas. Há também navalhas permanentes de carboneto de tungstênio, pesadas, que exigem cuidado redobrado no manuseio. As navalhas descartáveis (a "lâmina para micrótomo" do dia a dia) eliminam a afiação: quando o trecho de fio em uso gasta, o operador desloca a lâmina no porta-navalha e, ao fim do comprimento útil, troca a lâmina. Na rotina de parafina e de criostato, a descartável virou o padrão porque entrega fio novo a cada troca, sem depender de serviço de afiação.
Perfil alto ou perfil baixo
A navalha descartável vem em dois perfis, e o primeiro critério é o porta-navalha do seu micrótomo, não o tecido. As navalhas para micrótomo da Sora são de aço inoxidável X46Cr13 com revestimento de PTFE, ângulo de corte de 35 graus e caixa dispensadora com 50 unidades:
- Perfil baixo (SS 258-B), 80 × 8 × 0,25 mm: escolha padrão para cortes finos seriados em tecidos moles.
- Perfil alto (SS 258-A), 80 × 14 × 0,325 mm: mais rígida, para blocos maiores, amostras duras e osso descalcificado.
O uso previsto é a microtomia em pesquisa, histotécnica, ensino e biotério; as navalhas não são indicadas para diagnóstico clínico humano (IVD). Como conferir o perfil aceito e qual perfil serve a cada tecido está no guia navalha de perfil alto ou baixo. Os sinais de fio gasto e o custo por bloco estão em quando trocar a navalha do micrótomo.
Segurança no micrótomo
A navalha de micrótomo é um perfurocortante, e os acidentes se concentram em três momentos: troca de bloco, troca de lâmina e limpeza. Três hábitos resolvem a maior parte do risco:
- Trave o volante antes de aproximar as mãos do bloco ou da navalha. A revisão de 2025 recomenda conferir o freio antes de começar a cortar.
- Cubra o fio com o protetor sempre que a navalha não estiver cortando.
- Manuseie a lâmina com pinça, nunca com os dedos ao longo do fio, e descarte em coletor de perfurocortantes.
O passo a passo da troca segura e as regras de descarte estão no mesmo guia sobre a troca da navalha.
Para conferir se o porta-navalha do seu micrótomo ou criostato aceita perfil alto ou baixo antes do pedido, veja as especificações na página de navalhas ou fale com a equipe técnica da Sora.
Perguntas frequentes
O que é um micrótomo e para que serve?
O micrótomo é o instrumento que corta amostras biológicas em fatias finas e de espessura controlada, os cortes histológicos. Serve para preparar tecidos incluídos em parafina, em resina ou congelados para coloração e observação ao microscópio.
Quais são os tipos de micrótomo?
Os principais são o rotativo (manual, semiautomático ou automático), o de deslizamento, o criostato, o micrótomo de congelação, o vibrátomo e o ultramicrótomo. A escolha depende do meio de inclusão da amostra e da espessura que a técnica pede.
Qual a diferença entre criostato e micrótomo de congelação?
No criostato, o micrótomo inteiro fica dentro de uma câmara refrigerada, e amostra e navalha estão no frio. No micrótomo de congelação, só a platina da amostra é resfriada, e os cortes costumam ser mais espessos.
O que é micrótomo manual?
Em histologia, é o micrótomo rotativo em que o operador gira o volante à mão e controla o ritmo do corte. Em botânica, o termo também designa o micrótomo de mão, usado para cortar material vegetal sem inclusão.
Qual navalha usar no micrótomo rotativo?
Na rotina de parafina, usa-se em geral navalha descartável, no perfil que o porta-navalha aceita. O perfil baixo é a escolha padrão para cortes finos em tecidos moles; o perfil alto, mais rígido, serve a blocos grandes, amostras duras e osso descalcificado.
Referências bibliográficas e normas técnicas
- SUVARNA, S. K.; LAYTON, C.; BANCROFT, J. D. (ed.). Bancroft's Theory and Practice of Histological Techniques. 8. ed. Elsevier, 2018. ISBN 978-0-7020-6864-5. Capítulo 7, Microtomy.
- ABD EL-AZIZ, Y. M. et al. Mastering the art of sectioning: a comprehensive guide to slide-microtome technology and histological applications. Frontiers in Veterinary Science, v. 12, art. 1635706, 2025. DOI: 10.3389/fvets.2025.1635706.
- UNIVERSIDADE DE VIGO. Departamento de Biología Funcional y Ciencias de la Salud. Atlas of Plant and Animal Histology. Histological techniques 4: Sectioning. Disponível em: https://mmegias.webs2.uvigo.es/02-english/6-tecnicas/4-corte.php. Acesso em: 27 out. 2026.
- SLAOUI, M.; FIETTE, L. Histopathology procedures: from tissue sampling to histopathological evaluation. Methods in Molecular Biology, v. 691, p. 69–82, 2011. PMID: 20972747.
- SORA SCIENTIFIC. Navalhas para micrótomo: perfil alto e perfil baixo. Disponível em: https://www.sorascientific.com/navalhas/. Acesso em: 27 out. 2026.
- Créditos das imagens (Wikimedia Commons, recortadas; as versões recortadas seguem a mesma licença): micrótomo rotativo, foto de Rockpocket, licença CC BY-SA 3.0 (original); criostato, foto de Karbohut, licença CC BY-SA 4.0 (original); blocos em cassete, foto de Ed Uthman, série Tissue processing, licença CC BY-SA 2.0 (original).
